Ciao, São Paulo!

Primeira casa dos estrangeiros no Brasil, a Hospedaria de Imigrantes do Brás, o atual Museu do Imigrante, mantém a arquitetura eclética do século 19.

Por Bruna Galvão

Fotos: Arquivo Museu da Imigração do Estado de São Paulo, Bruno Lemos @bmlemos

O prédio que hoje abriga o Museu da Imigração do Estado de São Paulo é parte do complexo de edifícios em que funcionava a Hospedaria de Imigrantes do Brás. Projetada pelo arquiteto alemão Mateus Haüssler, que também construiu o Palácio dos Campos Elíseos, na capital paulista, a instalação possui linha eclética, que em meados do século 19 havia se tornado moda na Europa.

Os arquitetos da época buscavam referências em estilos do passado, como o clássico, o medieval e o barroco, para novos projetos. Dessa forma, a simetria e a grandiosidade foram marcas da fase eclética das construções entre o final do século 19 e início do século 20.

Muito mais do que seguir uma tendência estética, a hospedaria precisava ser funcional. “Era necessário acomodar muita gente em pouco tempo”, explica Henrique Trindade, pesquisador do Museu da Imigração do Estado de São Paulo, em referência ao espaço criado pelo arquiteto.

A Hospedaria de Imigrantes do Brás foi ainda ornamentada com estátuas de caráter renascentista encomendadas pelo governo do estado à empresa franco-suíça Villeroy & Boch, que tem no portfólio trabalhos como o navio Titanic e o túnel de Nova York.

Como a principal função da hospedaria, em seus primeiros anos, era o encaminhamento de imigrantes para a lavoura cafeeira, as estátuas postas no jardim caracterizavam Deméter (a deusa grega da agricultura) e suas filhas. “Uma forma de representar a riqueza do estado produzida pelo café e, ao mesmo tempo, conduzir simbolicamente os imigrantes ao interior”, diz Trindade. Hoje no Museu da Imigração, tombado pelo Congresp e pelo Condephaat, resta somente uma das filhas da deusa.

Primeira moradia de estrangeiros

Com o aumento do fluxo migratório em direção ao interior paulista, incentivado pelo governo de São Paulo, os primeiros estrangeiros chegaram à Hospedaria de Imigrantes do Brás já em 1887, um ano antes da sua inauguração oficial. Os imigrantes desembarcam em território paulista com boa parte do trâmite já acertada pelo governo, que custeava as passagens de navio e de trem, o alojamento e a alimentação na hospedaria, onde permaneciam três ou quatro dias, até serem encaminhados para alguma fazenda de café no interior.

Em substituição à Hospedaria do Bom Retiro, que tinha capacidade para receber até 500 migrantes, o governo financiou a construção da Hospedaria de Imigrantes do Brás para acomodar 3 mil pessoas. No entanto, antes da virada do século, o local chegou a abrigar cerca de 9 mil hóspedes em um único dia.

A escolha do lugar da nova hospedaria foi estratégica: entre os bairros Brás e Mooca, no entroncamento das duas principais ferrovias do estado, a São Paulo Railway, que liga Santos a Jundiaí, e a Estrada de Ferro Central do Brasil, que conecta o Rio de Janeiro a São Paulo, facilitando a chegada e a partida dos estrangeiros. “Além disso, o bairro, afastado da região central, evitava que imigrantes doentes recém-chegados pudessem contagiar a população”, acrescenta Trindade.

Funcionalidade

Na planta original, o prédio principal da Hospedaria de Imigrantes era reservado a três grandes funções: acolhida, refeitório e administração. Ele foi se expandindo e novos edifícios foram acoplados para oferecer outros serviços. Em 1907, em uma de suas laterais, foi construída a agência oficial de colocação de trabalho, um espaço específico para os imigrantes negociarem seus contratos, que até então eram feitos no jardim da hospedaria. Na lateral oposta, surgiu o prédio para correio, telégrafo e posto policial.

Ao longo do século 20, a hospedaria se modernizou juntamente com o processo de industrialização da cidade e com a chegada de novas tecnologias. Em 1936, ela se amplia com um novo hospital, na parte de trás, e uma nova enfermaria. Na década de 1950, ampliaram-se os espaços destinados às bagagens e à inspeção sanitária.

Após 91 anos de funcionamento, em 1978 o Governo do Estado de São Paulo encerrou as atividades da Hospedaria de Imigrantes do Brás por não haver mais a necessidade de uma construção de tal porte receber imigrantes, já que a responsabilidade de acolher as pessoas passou a ser de outras instituições não governamentais.

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