Skip to main content

DESIGN SEM FIRULAS

Rodrigo Brenner e Maurício Noronha, as mentes criativas por trás da Furf Design Studio, são a prova de que o design pode ir além da estética: contando histórias, transmitindo poesia e engajando-se em causas sociais

Rodrigo Brenner e Maurício Noronha, as mentes criativas por trás da Furf Design Studio, são a prova de que o design pode ir além da estética: contando histórias, transmitindo poesia e engajando-se em causas sociais 

POR FERNANDA MASSAROTTO DE MILÃO – @fernamassarotto

Um cupido com duas cabeças que compartilham a mesma filosofia. Essa distorção do mito é a metáfora a que Rodrigo Brenner (@rodrigobrenner), 34 anos, e Maurício Noronha (@noronhamauricio), 35, recorrem para definir a parceria firmada há quase 15 anos, que resultou na premiada empresa de design de Curitiba, a Furf Design Studio – @furfdesignstudio. A sintonia entre os sócios e “amigões” serve de base à sólida colaboração, que beira a perfeição. O curitibano Rodrigo e o paulista Maurício –que cresceu em Florianópolis– tiveram o primeiro encontro em uma das salas da puc-pr (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) aos 17 anos, como calouros do curso de design industrial.

Criado pela Furf e apresentado em um sofisticado baú Louis Vuitton, o troféu do último GP de São Paulo celebra as raízes brasileiras e a lendária curva Ayrton Senna.

Como ambos admitem, a amizade não aconteceu à primeira vista: o relacionamento era cordial e havia admiração mútua, mas nada de longos bate-papos nos corredores da faculdade. “Éramos colegas, mas não amigos”, esclarece Rodrigo. Há pouco mais de um ano, ao lado da mulher Fernanda, ele resolveu se estabelecer em Milão e lá inaugurar uma filial do negócio. Maurício, por sua vez, comanda a matriz em Curitiba. A distância não é problema. Eles se falam todos os dias, frequentemente por várias vezes… Chegam a intuir o que o outro está pensando. A conexão entre os designers foi sempre tão evidente que, já naquele longínquo segundo semestre de faculdade, convenceu um de seus professores de que eles deveriam se unir na concepção de um primeiro projeto.

 O carrinho de supermercado que desenharam, o Smart Cart, era simplesmente uma estrutura com rodinhas, sem um cesto. “Pensamos em ganchos onde o usuário encaixaria bolsas ou sacolas de compras”, explica Rodrigo. A criação estudantil mais parecia uma escultura. Ainda assim, para surpresa da dupla, chegou a despertar o interesse de algumas empresas, inclusive no Oriente Médio, mas ficou nisso. “O trabalho não saiu do papel, mas foi naquele momento que percebemos ter muito em comum. A parceria acadêmica se converteu em amizade verdadeira”, lembra Rodrigo. Daí para virar sociedade, bastou um segundo projeto, uma cadeira de balanço para a Desmobilia, marca de móveis e peças vintage com showroom em Curitiba. 

Assim nascia a Furf, em 2011, dentro de uma sala de aula, unindo a inexperiência à vontade de experimentar, motores do sucesso que o estúdio viria a colher nos anos seguintes. O nome não tem um significado específico, foi gerado quase que organicamente com palavras e sílabas jogadas ao vento. “O mais engraçado é que hoje usamos Furf como verbo, adjetivo e superlativo”, brincam o paranense e o catarinense de adoção. “Uma peça está furfando, é furf ou super furf!” Rodrigo e Maurício não ficaram só como mentes criativas. Arriscaram-se em processos produtivos e logísticos e se revelaram empresários capazes. Um aprendizado que os levou a serem conhecidos por um design sem fronteiras, em que funcionalidade, preocupação social e poesia coexistem harmoniosamente.

A dupla apresentou na MDW 2025, para a Qeeboo, um tronco reciclável que armazena e pode ser empilhado.

“Nosso processo criativo parte sempre de uma simbologia. Cada peça que idealizamos imprime um significado, tem um porquê”, confabulam os sócios, que se dão ao luxo de recusar propostas à margem da filosofia da Furf. “Fazemos uma seleção, mas não há restrições em nosso portfólio. Gostamos de transitar do utilitário ao extraordinário, de móveis com alma a capas que humanizam próteses, passando por objetos para o lar, interiores que refletem histórias e soluções para purificar corpos d’água [lagos e rios].” O método Furf é assim: eles são especialistas em não ser especialistas. Arriscam com moderação, sem temer consequências calculadas. “Eu venho de uma família da área médica, enquanto o pai do Maurício era piloto de avião –profissões extremamente técnicas, que não podem se sujeitar à sorte. Já o design é um processo que permite FURF DESIGN STUDIO tentativas e erros”, analisa Rodrigo, que se bate por um design inclusivo e, por vezes, quase inusitado. Prova disso é a criação da Confete, peça agraciada com três dos maiores prêmios internacionais de design –Red Dot Award: Product Design, iF Design Award e Cannes Lions. Feita de poliuretano e lançada no fim de 2016, a capa para prótese de perna se tornou cartão de visita da Furf e abriu portas nos quatro cantos do planeta. 

“Hoje, o produto está presente  em mais de 15 países por preços acessíveis. No Brasil, qualquer pessoa pode conseguir de graça pelo sus ou pelo inss”, proclama orgulhosa a dupla. A combinação de inovação e sustentabilidade é outra de suas marcas registradas, como atesta a Navegar, uma urna funerária ecológica feita à base de fungos em parceria com a startup Mush. O material usado é orgânico, renovável e biodegradável. Já as formas da peça– semelhantes à de um barco de origami– trazem consigo a poesia contida na frase eternizada por Fernando Pessoa: “navegar é preciso”.

Navegar, urna biodegradável criada com a Mush a partir de fungos

“Mais uma vez, vemos a simbologia no design, embora o mais importante, nesse caso, seja a substituição do material metálico ou cerâmico por uma massa que se dissolve na água ou na terra e serve como fertilizante”, comenta Rodrigo. As peças assinadas pela Furf conjugam forma e função com inteligência e leveza, além de um compromisso genuíno que ganhou a atenção de marcas como Boticário, Instituto Campana e Disney. Não é de se admirar que a Natuzzi, importante selo italiano de design, tenha convocado Rodrigo e Maurício para desenhar uma poltrona para a coleção Ginga, combinando a excelência do traço e da manufatura italiana com um toque da irreverente bossa brasileira. 44 A conquista do mercado internacional impulsionou ainda mais a presença da Furf nos principais eventos do setor, como a Semana do Design de Milão, da qual participa desde 2012. 

Em 2025, sua criação para a inovadora Qeeboo foi apresentada no salão a convite do arquiteto e designer italiano Stefano Giovannoni, fundador da marca. “Tronco é um lançamento multifuncional inspirado no formato de um caule. Feito de polietileno reciclável, serve para armazenar e ainda como superfície de apoio para objetos. É empilhável, e suas unidades sobrepostas formam uma árvore escultural, que ainda pode ser usada para pendurar roupas e toalhas”, descrevem os designers. Na avaliação deles, peças como essa atendem uma parcela significativa dos consumidores atuais, gente que busca produtos bem-pensados, economicamente acessíveis, e que se transformam no uso. Apesar do glamour e da rotina globalizada, os fundadores da Furf ainda mantêm um estilo de vida dos mais simples. Gostam de dormir cedo, praticam yoga e esportes –Rodrigo adora golfe e Maurício veleja–, tocam piano, bateria, violão e violino e são excelentes cozinheiros. A química é perfeita. “O importante é que sabemos exatamente o que almejamos. Demos o primeiro passo para a expansão do escritório. Queremos ser os melhores e por isso não delimitamos fronteiras em nosso trabalho: queremos contar histórias. Isso significa que há espaço e criatividade para desenhar desde um sex toy até o interior de uma estação espacial”, recitam em coro, provando que o cupido de duas cabeças compartilha não só a mesma filosofia, mas o mesmo discurso.

Posts relacionados

Deixe um comentário