Por meio da lente da biomimética, as estratégias do mundo biológico se transformam em lições de design essenciais para nós, que somos parte indissociável da natureza
POR CARINE SAVIETTO – @ca_savietto
Os humanos modernos existem há uns 300 mil anos de vida, enquanto outras formas de vida começaram a habitar o planeta 3,8 bilhões de anos atrás. Nós, que somos tão jovens, ainda temos muito a aprender com nossos irmãos mais velhos e mais sábios. Essa é a premissa da biomimética. A palavra, cada vez mais propagada no contexto do design regenerativo, significa “imitar a vida”. “A biomimética estuda as soluções que a natureza já pensou, testou, aprimorou e validou ao longo de bilhões de anos, para que seja possível traduzi-las em estratégias aplicáveis ao design, à engenharia, aos negócios e a qualquer segmento”, esclarece Giane Brocco (@gianebrocco), mestre em engenharia de produção e sistemas e fundadora da Amazu Biomimicry (@amazu.bio), consultoria que aplica a inteligência da natureza a processos de inovação, educação e desenvolvimento organizacional.
BIOINSPIRAÇÃO ORGANIZADA
Imitar o mundo natural não é uma ideia nova. Boa parte da nossa tecnologia veio dessa prática ancestral: “Desde fiar como o bicho-da-seda, tecer como as aranhas, usar radares como os dos morcegos, sonares como os dos golfinhos, e assim por diante”, enumera a bióloga greco-americana Elisabet Sahtouris (1936-2024) no artigo Rumo a uma Cultura de Cooperação Biomimética, publicado em A Canção da Terra (vários autores, Rossa Nova Editora, 2016). A biomimética contemporânea nos deu uma lente mais refinada e consciente para enxergar a natureza e aprender com ela. O termo foi popularizado na década de 1990 pela bióloga e ativista ambiental norte-americana Janine Benyus, autora do livro Biomimética: Inovação Inspirada na Natureza (Editora Cultrix, 1997). Hoje, designa tanto uma filosofia criativa quanto uma ciência e uma metodologia organizada.
“A biomimética oferece uma prática de inovação metodológica com etapas bem definidas e uma série de preceitos, inclusive éticos, que orientam o processo criativo. Ao contrário da cópia superficial de formas naturais, o design biomimético busca compreender como a natureza resolve problemas complexos –e aplicar essa sabedoria de modo contextual, regenerativo e sistêmico”, explica a designer de inovação e bióloga Alessandra Araújo, fundadora da consultoria Bio-Inspirations.
DESIGN COM DNA VERDE
Há quem diga que para um produto ser realmente biomimético, ele precisa ser sustentável –“compatível com a vida”, como defende a bióloga e designer Thalita Campbell. “O velcro, que surgiu da observação de carrapichos, é uma invenção bioinspirada. Porém, não é uma boa referência, porque a maioria dos velcros atuais é de poliéster, sintético e difícil de reciclar”, observa. Cofundado por Janine Benyus em 2006, o Biomimicry Institute faz referência aos chamados “princípios da vida”, os quais ensinam que a vida cria condições propícias a ela mesma.
Como engenheira de materiais, a natureza utiliza uma paleta limitada de elementos e, ainda assim, forja estruturas sofisticadas –como seda, marfim e colas à prova d’água– em temperatura ambiente, com solventes naturais e sem gerar subprodutos nocivos. Tudo é biodegradável e atóxico. A teia da aranha Caerostris darwini, por exemplo, que é mais resistente que o aço e o Kevlar, leva apenas água e proteínas em sua composição. Aplicados ao design, esses princípios são uma bússola ecológica para repensar tudo o que fabricamos –de tecidos a cosméticos, de tintas a medicamentos–, em busca de fórmulas sustentáveis, ainda que esse aspecto não seja prioridade no produto.
INTELIGÊNCIA NATURAL INQUESTIONÁVEL
Um dos desafios iniciais de Thalita Campbell como consultora criativa na agência Tátil (@tatil_design) foi a icônica embalagem da linha Sou, da Natura, lançada em 2013. Pautado pela ideia de “zero desperdício”, o projeto, em colaboração com a consultoria de inovação e design Questtonó, considerou o formato da gota d’água –a engenhosa solução biológica para acondicionar líquidos ocupando a menor superfície possível. O resultado? Um frasco que leva 70% menos plásticos e gera três vezes menos resíduos do que os convencionais, além de possibilitar o uso até a última gota.
“A biomimética vem ganhando novos contornos na Tátil”, afirma Thalita. “Ainda podemos trabalhar em criações baseadas em estratégias biológicas, mas a maior potência está em usar esse olhar para além do produto –aqui, a natureza também inspira discursos, posicionamento de marca e até a cultura da empresa”. Segundo a filosofia da agência, para modificar hábitos de consumo e promover escolhas conscientes, é preciso engajar os consumidores com a inteligência sedutora da natureza –como fazem as frutas. Quem explica é Fred Gelli (em depoimento extraído do documentário Biocêntricos, de 2023, de Fernanda Heinz Figueiredo e Ataliba Benaim), professor da puc-Rio e designer ceo da Tátil: “Um morango verde, em um fundo verde, está dizendo que não está pronto para ser comido. Ele tem cica, é duro, não tem cheiro. E então ele amadurece: fica vermelho, o contraste aumenta em relação ao fundo, o cheiro se espalha, ele fica macio, doce, irresistível… Isso é puro marketing!”. Fugir das soluções “ecochatas” –que apelam para a culpa ou o sacrifício– e apostar em estratégias “ecosexy”, que atraem e engajam pelo desejo, parece ser a trilha mais promissora.
DO MÉTODO À INTUIÇÃO
Para Marko Brajovic, que há quase 25 anos incorpora os ensinamentos da natureza em sua obra arquitetônica e de design, a criatividade humana pode se aliar ao mundo natural de inúmeras maneiras: “Esse processo pode ser instrumentalizado, com uma metodologia passo a passo, ou acontecer de maneira livre e orgânica, até mesmo a partir de experiências imersivas”. Em parceria com a biomimeticista Alessandra Araújo, o ateliê de Brajovic assina os porcelanatos Biomas, lançados em 2024 pela Decortiles, que exemplificam a metodologia biomimética aplicada ao design de revestimentos. Com base em estudos sobre a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pampa e o 38 Pantanal, a coleção traduz a identidade de cada um desses biomas em cores, texturas e relevos, para evocar a reconexão entre o humano e o natural.
Já na concepção do Mirante do Madadá, hotel de selva em construção às margens do Rio Negro, na Amazônia, o caminho foi mais intuitivo e sensorial. “Não colocamos nada no papel antes de conhecer o lugar, dormir ali, sentir o vento, o sol, entender as vistas, a proximidade com o rio e outras dimensões sutis do terreno”, relembra o arquiteto. Projetar, nesse caso, é menos sobre impor uma forma e mais sobre permitir que a área revele o que quer ser.” Da primeira viagem ao local da obra, o croata naturalizado brasileiro voltou com uma caixinha de sementes: “Passei noites olhando para elas até entender que o conceito arquitetônico do projeto se revelava ali”. As sementes viraram guias concretos para o desenho do hotel: elas inspiraram desde a implantação no território –imaginada como um gesto de plantio, respeitando topografia, solo, vegetação nativa e fluxos naturais– até as formas e estruturas construtivas, que espelham a resistência e a inteligência adaptativa desses organismos.
“Ainda estamos iniciando o aprendizado com a natureza, e é essencial que esse percurso contemple tanto dimensões científicas quanto líricas”, afirma Brajovic. O grande salto, diz o arquiteto, é compreender a biomimética como uma profunda filosofia de reintegração do ser humano à natureza.
“Ainda estamos iniciando o aprendizado com a natureza, e é essencial que esse percurso contemple tanto dimensões científicas quanto líricas” Marko Brajovic
FOTOS ATELIER MARKO BRAJOVIC – @ateliermarkobrajovic




















