Skip to main content

ALÉM DO TACACÁ

De porta de entrada da Amazônia ao cenário do Raio que o Parta, compilamos o mínimo que você precisa saber sobre Belém que sediou a COP30

De porta de entrada da Amazônia ao cenário do Raio que o Parta, compilamos o mínimo que você precisa saber sobre Belém que sediou a COP30

Por Lara Muniz
Imagem de capa: a entrada do Museu das Amazônias, um dos legados da COP30. 

Círio de Nazaré, Festa do Boi-Bumbá, Carimbó. Se você já ouviu alguma dessas expressões, é sinal de que teve contato com a história e as tradições de Belém, a capital do Pará. No entanto, por mais ricas que se revelem essas manifestações culturais, elas representam apenas uma fatia pequena da exuberante riqueza local. A gastronomia premiada mundialmente, a carpintaria amazônica e o vasto repertório de soluções baseadas na natureza que tornou sua urbanidade resiliente no convívio com as águas são contribuições incontestáveis da identidade paraense. E há muito mais.

ENTRE AS ÁGUAS

Belém nasceu na confluência do rio Guamá com a Baía de Guarajá, onde fica o Forte do Presépio, erguido em 1616 para guardar os recursos militares responsáveis por preservar o território. “Belém negou sua origem ribeirinha por muitos anos, mas está fazendo as pazes com sua própria história. É bonito ver que muitos de seus talentos locais hoje alcançam reconhecimento que vai muito além do regional”, pontua o arquiteto Luis Guedes, sócio de Pablo do Vale no escritório Guá Arquitetura. Pesquisadora da cultura e da tradição amazônicas, a dupla é responsável pelo projeto do Museu das Amazônias ao lado dos cariocas Bel Lobo e Bob Nery, do be.bo. O centro cultural, que teve suas portas abertas ao público em outubro graças a parcerias público-privadas, promete ser atração das mais concorridas.


Nesta página, o jeito ribeirinho de viver em paz com as águas e o talento manual marajoara presente na criação da identidade paraense

Costeira como é, a capital paraense tem uma arquitetura peculiar. Se antes ela avançava dando as costas para o rio –margeado por galpões e indústrias–, desde o fim dos anos 1990 Belém corre atrás de pontos de onde se possa contemplar as águas, buscando restaurar a natural vocação turística da orla por meio de intervenções urbanas como o Complexo Ver-o-Rio, a Estação das Docas e o Porto Futuro II, que devolveram a cidade com 42 ilhas a seus moradores.

BUREAU CRIATIVO

Mas quem caminha pelas ruas encontra outros chamarizes arquitetônicos. Caso do ecletismo que se espalhou pelos idos dos anos 1900, momento em que o ciclo da borracha trouxe muito dinheiro de fora –e um tanto de gosto duvidoso também. Os barões agora ricos queriam transformar a cidade numa pequena Paris e fizeram amizade com o próprio Gustave Eiffel. Como na época peças de ferro a exemplo das usadas na gigantesca antena de rádio francesa eram modulares e vendidas em catálogos, logo se viu o Mercado de Peixe e a Caixa d’Água ganharem uma nova e moderna roupagem.

Os construtores criaram uma arquitetura que copiava o neoclássico, o art déco e o art nouveau –períodos distantes entre si, delatando a falta de profundidade nas escolhas. Foi dessa opulência que nasceu a Basílica de Nazaré, financiada pelos novos ricos, que não eram bem-vindos na Catedral da Sé, frequentada pelas famílias tradicionais. Daquela época, restam ainda os marcos da azulejaria francesa e a inclusão de plantas exóticas no paisagismo.

Mais adiante, perto dos anos 1960, desponta um namoro com o modernismo brasileiro, e a azulejaria de Athos Bulcão chama a atenção, sendo repetida à moda local, ernacular. Muitas das vezes, o revestimento chegava aos pedaços devido ao transporte, mas nada se perdia. Mosaicos de cacos ganhavam as platibandas de casas coloniais e neocoloniais, numa interpretação popular e colorida que ficou conhecida como movimento cultural Raio-que-o-parta. Outro traço de identidade reside no trabalho ancestral de carpintaria que moldou o jeito de construir e de viver nas ilhas à frente de Belém. O legado desses mestres artesãos, destacado pelo projeto Carpinteiros da Amazônia, tem sido reverenciado como patrimônio cultural dos mais importantes.

COP30: SINAL DE UM NOVO CICLO?

Os holofotes do Brasil –e da parte do mundo preocupada com as mudanças climáticas– se voltaram para a cidade-sede da cop30. O montante estimado em investimentos públicos e privados aproxima-se da casa do R$ 1 bi. Não cessam as discussões acerca do legado do evento. A ampliação da engenharia sanitária, obras de macrodrenagem, de transporte e de mobilidade são positivas, especialmente para as camadas mais populares. Já a criação de novas avenidas na última área de mata preservada da cidade traz a preocupação de que logo, logo a urbanização deve aportar por ali, bem onde não deveria.

Nesse momento em que governantes se debruçam para encontrar soluções que ajudem a mitigar as questões derivadas das mudanças climáticas, Belém se revela palco inspirador. “Temos um cenário de repertório e de soluções construtivas e materiais muito resilientes. A população ribeirinha sempre precisou conviver com alagamentos e cheias, aprendeu a subir o assoalho, a lidar com as chuvas. Reconhecer a sabedoria das soluções baseadas na natureza é refinar as lentes em direção ao conceito das cidades inteligentes”, explica a arquiteta Taynara do Vale Gomes, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Pará (cau-pa). O que antes era chamado de progresso, com soluções formais que envolviam infraestrutura para afastar as águas, hoje já não é suficiente. As referências eurocêntricas, a exemplo de jardins de chuva, telhados verdes e praças alagáveis, no Pará existem desde sempre, “são os nossos campinhos de futebol”, brinca Taynara. “Em certos casos, olhar para trás é o melhor jeito de se aproximar do futuro”, completa.

Posts relacionados

Deixe um comentário