À frente da marca Foz, o designer Antonio Castro combina técnicas diversas com um olhar que traz os fazeres manuais para o dia a dia, desmistificando clichês
POR MARTA DE DIVITIIS
O artesanato materializa o que é imaterial; a cultura, a princípio, é intangível. É TUDO MUITO claro para Antonio Castro. “O artesanato transita entre dois extremos: do luxo à desvalorização, do sagrado ao profano. O que tento é trazer essas técnicas para o cotidiano, em roupas para serem usadas aos sábados pela manhã!” Assim declara o alagoano que em 2020 lançou o selo Foz. Rapidamente, criador e criação ascenderam na escalada fashion, a ponto de no último mês de outubro realizarem seu terceiro desfile na spfw –São Paulo Fashion Week–, a maior semana de moda da América Latina, com um sucesso estrondoso.

A nova coleção –Povoado Poesia–, com 36 modelos, entre looks femininos e masculinos, acolhe 12 trabalhos manuais diferentes. São bordados, rendas, fuxicos, tricôs e trançados, além de estampas exclusivas, tudo desenvolvido por artesãs parceiras de Alagoas, Minas Gerais, interior de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O que se viu nas passarelas foram vestidos, saias, calças e tops coloridos destacados por tramas manuais, algumas utilizadas em acessórios, com muita criatividade.
Fuxicos gigantes, unidos, se transformaram em um vestido, enquanto saias e laterais de camisas mostraram estampas mescladas à antiga técnica de bordado casinha de abelha, que resulta numa textura semelhante à de favos de mel.
DENTRO DA MENTE DO CRIATIVO
Para o estilista, o que dá norte a seu trabalho é a frase atribuída ao escritor russo Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a sua aldeia”. Assim, o menino que nasceu na capital alagoana e sempre se interessou por arte descobriu o artesanato e a moda fazendo uma ponte entre ambos, tornando-os contemporâneos e uma forma de expressão pessoal. “Para me comunicar com uma audiência mais ampla, entendi que deveria olhar para o meu quintal”, diz. Seu processo criativo começa numa busca pelas raízes locais e familiares e no encontro delas com o artesanal, que expressa a cultura popular. “O artesanato materializa o que é imaterial; a cultura, a princípio, é intangível.”
Em São Paulo, onde vive desde 2019, Antonio se formou em Design de Moda pelo Senac, como bolsista do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). Mas não foi cru que o rapaz aterrissou na capital paulista: ao deixar Maceió, trazia na bagagem cursos técnicos e um portfólio inaugural que já anunciava o potencial e o talento do hoje aclamado profissional.
PEÇAS ATEMPORAIS
A modelagem ampla e confortável, que serve a diferentes gêneros e corpos, é uma assinatura do designer. “No começo, eu fazia peças oversized porque não tinha condições de expandir a grade de tamanhos. Mas, aos poucos, a marca acabou incorporando essa característica, a ponto de se tornar algo identitário.” Por questões de qualidade, sustentabilidade e longevidade das roupas, materiais naturais como linho e algodão são a base para as coleções, acompanhados ainda de tencel e liocel, tecidos produzidos artificialmente utilizando fibras de madeira.
A seda surge pontualmente. Os bordados são o carro-chefe, mas também estão presentes a cestaria, o trançado de fibra, em especial a extraída do ouricuri (palmeira nativa brasileira, presente em todo Nordeste), que dá forma a bolsas e chapéus. Madeira, latão e cerâmica são matéria-prima para joias. “O material utilizado varia conforme a coleção e o grupo de artesãos contemplado.”



















