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O Design Como Força Agregadora

Arquitetura, design, arte e Gastronomia interagem para compor uma nova paisagem cultural durante o Campos do Jordão Design Festival

Arquitetura, design, arte e Gastronomia interagem para compor uma nova paisagem cultural durante o Campos do Jordão Design Festival

Por Cecília Vieira Gomes

QUANDO CHEGUEI à turística cidade serrana para a 3ª edição do Campos do Jordão Design Festival para compor o painel “Retrofit, Revitalização e Renovação”, eu levava comigo a expectativa de reencontrar amigos, ver projetos inéditos, conteúdos provocantes e, claro, respirar – afinal, Campos do Jordão, em São Paulo, sempre nos faz esse convite. Contudo, o que vivi durante aqueles quatro dias de setembro me convenceu de que o evento foi muito além da expectativa. Voltei com a certeza que trata-se de um movimento vivo, em que design, arquitetura, arte e gastronomia dialogam para dar corpo a uma nova paisagem cultural.

Vale ressaltar que a idealizadora e curadora do festival, Carmem Alvim, soube explorar com maestria todo o potencial alicerçado em terras jordanenses. Novos hotéis, museus e espaços culturais revitalizados  fizeram a cidade pulsar de modo diferente. A curadoria escolheu com precisão onde atuar, distribuindo exposições, visitas, lançamentos exclusivos e intervenções por locais simbólicos. Uma das experiências mais potentes foi a visita ao Museu carde (Carro, Arte, Design e Educação), guiada pelo curador, o arquiteto Gringo Cardia. Os automóveis que estão ali –bem como as esculturas e painéis– funcionam como cápsulas de memória, intérpretes de um Brasil múltiplo. Cardia nos conduziu por paisagens estéticas e históricas, conectando identidade cultural, memória e inovação. 

Um dos destaques é a instalação com o Brasinca Uirapuru 1964: o raro exemplar da indústria nacional recebeu uma pintura de inspiração indígena, além de elementos de crochê e folhagens feitos por 200 artesãs vinculadas ao Instituto Proeza. A proposta une modernidade, tradição e sustentabilidade, transformando o carro em obra de arte viva e política. Também visitei o Auditório Claudio Santoro e o museu a céu aberto Felícia Leirner, que dividem um terreno imerso na Mata Atlântica. No museu, são mais de 80 esculturas de bronze, cimento branco e granito, distribuídas entre árvores e trilhas, em um diálogo com a topografia e a paisagem. As fases da obra de Felícia foram dispostas levando em conta desníveis e visadas, criando narrativas espaciais que se desenrolam enquanto o visitante caminha pelo jardim.

Outra exposição que me impressionou foi a do escritório de arquitetura e design Leinemann + Ortiz: tapeçarias e itens de mobiliário surgiram em um lindíssimo cenário de painéis de taipa, num contraponto de formas contemporâneas e técnica vernacular de construção com terra. Em Campos do Jordão, testemunhei o design atuando como força agregadora entre quem projeta, quem acolhe e quem visita. Arquitetura, design de interiores, arte, gastronomia e hospitalidade –todas essas vozes se fizeram ouvidas e tensionadas. O festival entregou uma provocação: observemos as cidades que habitamos com outros olhos; reinventemos sem apagar; desenhemos não só objetos, mas modos de ser. Estou certa de que o design de interiores, como movimento cultural vivo, pode transformar territórios, dar alma à arquitetura e redesenhar o cotidiano.

Cecília Vieira Gomes é presidente da abd – Associação Brasileira de Designers de Interiores

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