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JOIAS DA CASA PARA O CORPO

Como o talento de designers de objetos e móveis se expande para colares, brincos, anéis e outros adornos pessoais? Elegemos três histórias singulares, carregadas de criatividade e conscência ambiental.

POR DANIELA HIRSCH

COMO O TALENTO DE DESIGNERS DE OBJETOS E MÓVEIS SE EXPANDE PARA COLARES, BRINCOS, ANÉIS E OUTROS ADORNOS PESSOAIS? ELEGEMOS TRÊS HISTÓRIAS SINGULARES, CARREGADAS DE CRIATIVIDADE E CONSCIÊNCIA AMBIENTAL

A casa é uma extensão do corpo. Essa afirmação não é nova, mas será que o inverso vale? Seria o corpo uma extensão da casa? Sim, o diálogo entre decoração e moda é via de mão dupla. Enfeitamos a casa e nos enfeitamos também. Para a consultora de imagem Camila Mundell, “os cenários de um lar, com seus detalhes, traduzem a personalidade e a alma de quem vive ali. O que vestimos e o que compõe os ambientes atuam como uma narrativa visual que expressa nossas histórias, experiências e desejos”.

A especialista em conectar os universos da arquitetura, do design, da moda e das artes busca referências variadas para mostrar como essas linguagens se interrelacionam. Uma das mais potentes é o trabalho da artista francesa de origem ucraniana Sonia Delaunay, que, no início do século 20, combinava grafismo com contraste de cores. Suas criações estampavam mobiliário, objetos, telas, tapeçarias, porcelanas, joias, roupas e até carros. “A partir do conceito de coexistência, Sonia concebia movimentos simultâneos que se tornaram a força motriz do que conhecemos como estilo órfico. Ela aplicava sua arte em diferentes áreas, com a intenção de transmitir identidade.”

Esse talento, somado ao interesse de explorar diversos campos de atuação, tem sido notado entre marcas e profissionais brasileiros que consolidaram suas trajetórias no mundo da decoração e do design autoral, levando aos ambientes residenciais ineditismo, conforto, beleza e, por vezes, uma dose de sustentabilidade com suas peças. Nos exemplos a seguir, o ponto de partida são uma cadeira, objetos de porcelana e tapetes persas. O ponto final: joias inusitadas, únicas, criadas por Jader Almeida, Lilian Malta e, em parceria com a by Kamy, Livia Monteiro. Todos eles expandiram suas habilidades para tornar ainda mais poderosa a conexão morada-corpo.

O PODER DA SILHUETA ATEMPORAL

Há 20 anos se materializava a primeira cadeira Dinna, assinada por Jader Almeida, que celebra a trajetória de sucesso do modelo com uma coleção de joias. As curvas da estrutura de madeira são representadas em colares e brincos de ouro-rosa e prata, pontuados com diamante. Os adornos refletem a essência do design de excelência, ao qual o designer catarinense se dedica constantemente. “Os limites da criação deixam de existir quando se tem um traço potente.” As peças evidenciam a delicadeza do desenho, o cuidado na escolha dos materiais e na confecção. Cada detalhe é pensado para refletir não apenas o passado, mas também a aspiração contínua por momentos únicos”, diz Jader. Junto com as joias Dinna ainda foram lançadas versões especiais e limitadas da cadeira, reforçando sua relevância ao longo do tempo. Essa já é a segunda experiência de Jader Almeida com os pequenos ornamentos preciosos – a primeira coroou seus dez anos de trabalho, com a coleção Jardim. Ambas as séries são encontradas no site do designer e na Galeria Little Wishes, em São Paulo.

A SURPREENDENTE LEVEZA DO MAXIMALISMO

Quem tem a oportunidade de perambular pelo ateliê da ceramista Lilian Malta, em São Paulo, encanta-se com a translucidez das peças criadas sob a técnica bone china. Em contraste com o branco que permite a passagem da luz e ressalta a leveza da porcelana estão outras tantas fornadas de objetos com acabamento de esmalte celadon em tonalidades verde-azuladas, que indicam o propósito de Lilian de se aproximar constantemente da natureza.

Entre encomendas, descartes de produção e momentos reflexivos, uma pergunta se fez mais insistente: por que não estender a beleza da porcelana aos adornos para o corpo? Os pedaços inutilizados do material poderiam dar forma a outras joias. E assim nasceram as primeiras versões, aproveitando as sobras de duas linhas: Imensidão, que remete ao mar e suas nuances, e Oriri, que volta às origens da vida, com tocante delicadeza. ῝Experimentei uma vertente estética oposta à que caracterizou meu trabalho até então. Minhas esculturas são pautadas pelo minimalismo. Foi muito lúdico e satisfatório percorrer o caminho oposto: o do exagero. Dei vazão à exuberância e à riqueza que antes eu tentava podar. São joias quase barrocas. Fiquei feliz ao descobrir que existe esse espaço dentro de mim”, conta a artista, que apresenta as criações em seu perfil no Instagram.

A sustentabilidade está na identidade da by Kamy que, há mais de uma década, tem um compromisso contínuo de não gerar lixo em seu fabrico. Uma feliz coincidência fez com que fragmentos de tapetes ganhassem um fim nobilíssimo: tornaram-se joias pelas mãos da designer carioca Livia Monteiro. Depois de receber um cartão da marca com uma apara de produto, a designer teve a ideia de combinar esse material com pedras e metais nobres, dando vida a adornos para lá de especiais. “Passei mais de um ano estudando os fragmentos de tapetes para saber o que melhor se encaixava no uso e conceito de joia. Alguns persas se mostraram ideais. Cada pedacinho é único, portanto, cada joia também é”, comenta Livia. Assim veio à luz a coleção Pérsia, que lança um olhar contemporâneo sobre a ancestralidade ao mesclar tramas têxteis a referências arquitetônicas árabes, como os muxarabis – presentes na armação metálica dos adornos. “A interpretação dada por Livia às peças reforçou a maneira como tratamos os tapetes: são preciosidades, têm uma tradição na tecelagem e isso está muito valorizado nessa coleção de estreia”, declara Francesca Alzati, diretora criativa da by Kamy. A designer aceita encomendas por meio de seu perfil no Instagram.

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