Ilha do Ferro: arquipélago criativo

Situada em Alagoas, local tem na poesia e na beleza do artesanato sua maior riqueza.

Por Rodrigo Ambrosio

Fotos: Carlos dos Anjos / Felipe Brasil / Rodrigo Ambrosio

A Ilha do Ferro não é geograficamente uma ilha e também não tem minério de ferro. A origem do nome Ilha é incerta – alguns falam que remete a uma ilhota logo à sua frente, e outros da situação ilhada do povoado quando a chuvas são intensas.

Já Ferro pode ser o sobrenome de uma família que habitou o lugar e até mesmo um barco ferroso naufragado por lá. Não há um consenso. O fato é que o nome do local se tornou uma marca muito mais rica e forte do que qualquer suposição de origem etimológica e, poeticamente, muito mais interessante.

“Eu sou a Ilha do Ferro, a ilha da imaginação, eu sou as raízes da vida, pássaros, rio e sertão.”

A Ilha do Ferro, situada em Jaciobá (o atual município de Pão de Açúcar, em Alagoas), é uma aldeia contemporânea ribeirinha, com pouco mais de 500 habitantes nativos e inúmeras raízes culturais e étnicas. Formou-se nas franjas alagoanas da margem esquerda do grande Rio Opará (o atual São Francisco), que deságua adiante, no imenso Atlântico.

O Boa Noite é um bordado que nasceu e cresceu por lá, tão belo e delicado quanto a flor que o batiza. Um saber transmitido por gerações de mulheres que, indiretamente, fez florescer as peças de mobília-arte do mestre Fernando Rodrigues.

Pois foi numa expedição para fotografar o bordado, no início da década de 1980, que o professor Celso Brandão conheceu o seu Fernando e suas primeiras peças de madeira e, generoso que é, apresentou-as para o mundo.

“Do alto, em silêncio, o guardião cria, a Boca do Vento grita — sou daqui, sou pra mim, sou pra ti, sou pro mundo.”

O tempo e vários outros olhares se encarregaram de transformar a singela Ilha em um arquipélago criativo. Do cotidiano tradicional, conectado ao rio e à natureza sertaneja, surgem obras que mimetizam a fauna e a flora. Seres mitológicos e humanos também são representados pelo vasto repertório do imaginário local. Mestre Aberaldo diz com sabedoria que a natureza entrega a obra pronta e o artista dá só um reto- que para finalizar.

Mulungu, umburana, aroeira, mororó, pereiro, craibeira, imburana-de-cheiro, cedro, braúna, jaqueira, pau-ferro… De raízes, troncos e galhos caídos brotam Aberaldo, Bedeu, Boioio, Boró, Camille, Carol, Cicinho, Clemilton, Dedé, Eraldo, Fabrício, Faguinho, Gedson, Guilherme, Jordânia, Leno, Lucas, Neto, Petrônio, Rejania, Salvinho, Samuel, Toinho, Urânia, Valmir, Vandinho, Vavan, Vieira, Yang, Zé Crente e um dicionário completo de criadores. Uma infinidade única no Brasil.

Em 2020, durante as pesquisas para o documentário Ilha do Ferro: Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite, nos deparamos com narrativas de antigas olarias locais e causos sobre a lida diária com uma tipologia extinta até então, a cerâmica. Em meio à queima dos tijolos, das telhas e das lajotas que abasteciam o povoado e seus arredores, há relatos de pequenas peças figurativas e utilitárias que habitavam o universo lúdico dos jovens que participavam das caieiras.

Para reviver a história e resgatar uma tradição, construímos um primeiro forno com os mesmos tijolos de um antigo, em ruínas, e com a técnica do mestre Poeta, um ancião referência nesse ofício, que já havia construído dezenas deles na região. Em seguida, convidamos o mestre-artesão Genilson, um oleiro experiente, para transmitir por meio de oficinas os seus saberes para crianças e jovens interessados na argila. E, finalmente, no dia 16 de março de 2022 realizamos a primeira queima – um novo momento para um velho costume.

“À noite, o dia sobre a mesa, tarde-luz de um lampião. Sob um sopro-descanso, um pano de boa noite.”

A semente da Olaria Comunitária Ilha do Ferro está plantada, regada com ancestralidade e sob o fértil Sol contemporâneo. O ímpeto de alguns artistas já molda belos contornos na plasticidade do barro. É o caso do jovem artista Tundum e seu novo capítulo. O barco da vida navega e assim nascem novas tradições, da mesma forma que o Boa Noite variou do franco-ibérico bordado Redendê.

E que também o diga o saudoso mestre Fernando, que, de tanto fazer com o pai tamancos (uma herança holandesa, como conta a museóloga Cármen Lúcia Dantas), se inquietou para fazer bancos, cadeiras e um sem-fim de esculturas que inspiram todo o arquipélago formado.


Os versos entre aspas integram as composições criadas por Rodrigo Ambrosio para o documentário Ilha do Ferro: Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite, de sua autoria.

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