Marcelo Rosenbaum usa seus conhecimentos como arquiteto e designer para reduzir desigualdades sociais e estimular tanto a bioeconomia como a valorização dos povos indígenas e suas práticas ancestrais
POR REGINA GALVÃO
A trajetória desse arquiteto e designer paulista aos povos originários e às comunidades de artesãos. Fundador do instituto A Gente Transforma, criado em 2011, Marcelo Rosenbaum estabeleceu o compromisso de desenvolver tecnologias sociais aplicadas à arquitetura e ao design, com o objetivo de incentivar a bioeconomia e o conhecimento ancestral dos povos. A intenção é promover a preservação do meio ambiente e a transformação social, reduzindo desigualdades e enfrentando o êxodo rural causado pela falta de oportunidades de trabalho. No final de maio, Marcelo me recebeu na nova sede de seu escritório, o Rosenbaum Arquitetura, no bairro paulistano de Pinheiros, instalado na sobreloja da Feira na Rosenbaum –marca comandada pela curadora Cris Rosenbaum, mãe de seus dois filhos, Bertha e Ian. No espaço com pé-direito duplo e amplas aberturas que favorecem a entrada de luz natural, ele divide a bancada, repleta de computadores, com a sócia de longa data, a arquiteta Adriana Benguela, e uma equipe de jovens arquitetos e designers.
Nosso bate-papo aconteceu no café da loja, de frente para a rua. Marcelo estava na companhia da cadela Gal, uma pastora-de-shetland, então com 18 meses, que interrompeu a entrevista algumas vezes, curiosa pelos pedestres que passeavam com seus pets. Foi uma conversa fluida na qual ele refletiu sobre os aprendizados e as conquistas de uma carreira construída com escuta, respeito e propósito. Sua arquitetura, como revelou, é movida pelo desejo de transformar realidades sem apagar histórias.
&DESIGN: Seu projeto na aldeia Iauanauá foi selecionado pela curadoria da Bienal de Arquitetura de Veneza e está representando o Brasil no evento de 2025, com uma nova proposta de construir e morar na floresta. Conte sobre ele.
Marcelo Rosenbaum: Esse é um projeto de escala gigante. São quase 15 anos de relação com a aldeia e o cacique Biraci Brasil Yawanawa, no Acre, pensando três projetos ao longo desse tempo, todos envolvendo a ideia da casa –de uma nova tipologia de habitação dentro da aldeia. Pensamos juntos como construir, desenhamos e fomos atrás de captação de recursos. E foi ele quem conseguiu. Daí, virou meu cliente. Um cacique contratando um escritório de arquitetura– o protagonismo disso é dele.
&D: Como vocês se conheceram?
MR: Num festival na aldeia, em 2011. Eles convidaram pessoas de fora para celebrar a música, a cultura, a medicina deles. Quando cheguei, fiquei completamente encantado. Foi aí que começou tudo. Nossa primeira experiência se deu com as luminárias, de 2013, criadas para a La Lampe, lançadas em Milão. Depois, desenvolvemos um projeto de habitação, a convite do Governo do Acre, com madeira, palha e técnicas sustentáveis, dentro do Minha Casa, Minha Vida Rural. Foi um projeto aprovado pela Caixa, mas o programa exigia o uso de concreto, o que acabou impedindo sua aprovação no governo estadual.
&D: O que foi feito ali agora?
MR: A construção dos três edifícios aconteceu há pouco tempo, em seis meses, mas o que mais me toca é um cacique contratar um arquiteto. Ele conseguiu o dinheiro ao vender uma obra de arte digital de suas filhas [Mukashahu Yawanawa e Nawashahu Yawanawa] com o artista turco Refik Anadol e, então, me contratou. O projeto carrega essa história rara, linda, potente e que não agride a natureza. Não é um projeto feito sobre eles, é feito com eles. A estrutura foi desenhada pelo engenheiro Hélio Olga, da construtora 50 ITA [conhecido por suas construções de alta tecnologia e sustentabilidade]. Tudo feito com madeira nativa de manejo da floresta amazônica e trabalho 100% operado pelos indígenas e ribeirinhos. Tem conforto ambiental, pouco uso de madeira, bases de concreto e beirais prolongados de 4 metros. Fizemos uma Casa Modelo, uma Universidade de Saberes e um Centro Cerimonial, com 41 metros de diâmetro e 33 metros de vão livre, com treliças de madeira nativa beneficiada localmente.
&D: Você estabeleceu uma relação muito próxima com os povos originários. Como isso aconteceu?
MR: Não sei, acho que é a construção de uma aliança. São 15 anos de dedicação, troca e aprendizado. Fui entendendo que a arquitetura é uma oportunidade de interlocução nessas alianças. É uma forma de contribuir com a permanência desses povos no território, com a floresta em pé. Eles são os guardiões da floresta. Então, a arquitetura entra como ferramenta de escuta, de apoio. A escuta ativa é essencial. É preciso paciência, tempo. Você não chega impondo nada. A gente pede licença, ouve, observa. É um processo de construção conjunto, respeitando o tempo e a cultura da comunidade.
&D: Em quais projetos com povos indígenas você está envolvido atualmente?
MR: Eu atuo muito com o Ministério dos Povos Indígenas. Fiz um projeto para a ministra Sônia Guajajara para a cop30, o Pavilhão Indígena. Temos trabalhado também com o Conselho Indígena de Roraima. É a nova sede deles, em Boa Vista. São três anos fazendo esse projeto a pedido deles. Nessa sede, eles têm a parte de gestão ambiental, advogados, psicólogos, administrativo, núcleo das mulheres e dos jovens. Estamos falando de um dos primeiros Conselhos Indígenas do país, formado por cerca de 30 etnias que se uniram lá atrás. Eles se juntaram para defender seus modos de vida, suas culturas, questões legais. É uma luta pela floresta em pé, pela permanência no território. Essa organização representa exatamente isso.
&D: Em quais outras regiões vocês estão atuando?
MR: Estamos com um projeto no Ceará, o primeiro território indígena demarcado no estado. Esse trabalho surgiu a partir de uma compensação ambiental, por causa do impacto de um parque eólico no território. Construíram uma usina eólica sobre uma lagoa sagrada para o povo tremembé. Invisível aos olhos, mas real para eles.

&D: E o que foi feito como contrapartida?
MR: Com o dinheiro de impacto ambiental da usina, nós desenvolvemos o projeto de dez edifícios em três aldeias. São espaços para beneficiamento da castanha, da mandioca, casa de farinha, centro de memória, casa para guardar o trator e até uma casa de cajuína, tradicional dos tremembés. É um projeto que nasceu com eles, a partir da escuta. Mas, claro, fica a pergunta: existe dinheiro que pague o que foi perdido ali? Como se compensa uma catástrofe espiritual, simbólica e ambiental? Porque, na verdade, o comentário do outro lado é sempre o mesmo: “isso é invenção de índio, uma lenda”.
&D: Há projetos também em outros estados?
MR: Sim, além de Roraima e Acre, estamos, com o A Gente Transforma, no Pará, com os caiapós –inclusive estou indo para lá amanhã. Na cop30, em Belém, são várias coisas, como a Aldeia cop , com o Ministério dos Povos Indígenas, para acolher e receber 3 mil indígenas; a Casa Maraká, um ponto de encontro de lideranças, artistas e comunicadores indígenas; e, num grupo grande de pessoas e junto com a Escola da Cidade, o Insper e a Unesp, estamos desenhando a primeira Bienal Indígena de Arquitetura e Urbanismo. Vamos aproveitar esse momento da cop para ouvir as várias comitivas que estarão por lá.
&D: Você lembra quando começou a se envolver com comunidades tradicionais?
MR: Começou com o projeto Piracema, com a designer Heloísa Croco. Ela me convidou para ir ao Jalapão para trabalhar com o capim dourado. Foi meu primeiro trabalho em comunidade, com as mulheres de Ponte Alta [no Tocantins]. Levei o fio preto para lá. Até hoje elas usam. Fizemos móveis e objetos. Era uma comunidade de transição entre cidade e quilombo. A partir daí, fui desenvolvendo uma metodologia própria, trazendo isso para a arquitetura também.
&D: Como essa metodologia se estrutura?
MR: Uma coisa que eu entendi é que escuta é tecnologia. Escuta ativa é o primeiro passo de qualquer projeto. A partir dela, se constrói junto, organicamente. Ninguém entra na casa de alguém dizendo o que tem que mudar. Você não chega numa casa dizendo que a geladeira está feia ou que a forma de educar os filhos está errada. A gente pede licença com delicadeza, honra os ancestrais e escuta o que está ali, o que já existe. A arquitetura entra como uma transição, como um aprendizado. A confiança é o pilar. Não tem nada pré-formatado.
&D: Você já pensou em desistir de algum projeto?
MR: Sim, desse com os iauanauás. Fiz três projetos, achava que já não ia mais acontecer. Mas todo mês eu estava lá, voltava a conversar, ia para a floresta, eles vinham para cá. Esse projeto me ensinou muito. E aconteceu no tempo certo, com maturidade, entendimento e respeito. Foram 15 anos! Nunca larguei. Foi uma lição sobre tempo –o tempo da natureza, não o do capital.
&D: Você sente que os povos indígenas mudaram desde quando você iniciou a relação com eles?
MR: Acho que tudo mudou. A sociedade em geral mudou, há um letramento maior, se fala mais da presença indígena. Há artistas, comunicadores, lideranças –todos com protagonismo. Hoje, não é mais o branco falando sobre indígena, mas sim com os indígenas, ou melhor, eles falando por si. E eu me coloco como aliado. O meu trabalho é parte de uma aliança. Não sou protagonista, sou coadjuvante. O protagonismo é deles. Meu trabalho ajuda a reverberar esse protagonismo.

&D: Como você se sente fazendo parte desse processo?
MR: É muita responsabilidade, uma honra, honro muito e cuido muito. O próprio entendimento do tempo da natureza é um aprendizado dessa convivência.
&D: Isso muda completamente a forma de pensar os projetos, né?
MR: Totalmente. Por exemplo, com as mulheres caiapós, estou há seis anos desenhando um plano de turismo de base comunitária. É escuta, ida e vinda, volto para refazer, para ouvir, não tem business plan, é o anticapitalismo. É um processo de confiança. Confiança é a base dessa metodologia.
&D: E financeiramente? Como se sustenta isso?
MR: Teve um tempo em que o projeto foi voluntário. Mas isso me adoece, porque eu também dependo de dinheiro para viver. Hoje, não coloco isso como um “projeto social do escritório”. Isso é o nosso trabalho. Não tem lado B. É dedicação, responsabilidade e continuidade.
&D: O que você tem feito nos projetos com comunidades de artesãos?
MR: Tenho feito cada vez menos projetos desse tipo e um dos mais recentes foi com as mulheres quilombolas do Jalapão, que começou em 2023. Reunimos três comunidades que nunca tinham trabalhado juntas para criar um artesanato coletivo. Mais significativo do que a coleção de objetos, foi a união delas, o fortalecimento e o reconhecimento do saber fazer. Falamos muito do capim dourado, mas pouco se fala que o saber fazer veio das mulheres quilombolas do Jalapão. As avós delas aprenderam com os carajás, e virou o que a gente conhece hoje. O designer Renato Imbroisi também foi muito importante nesse processo ao desenvolver, com elas, itens de casa que são vendidos até hoje.
Cobogó Mundaú, feito de conchas de sururu e comercializado pela Portobello. O projeto é co-assinado por Marcelo Rosenbaum, Rodrigo Ambrósio e Itamácio Alexandre
&D: E com a Portobello?
MR: É uma parceria que começou com o cobogó Mundaú, feito de casca de sururu. Um projeto com biomatéria e impacto socioambiental, com liderança da favela, envolvendo a comunidade na periferia de Maceió. Um projeto sobre cultura, favela e território. Tudo conectado. Neste ano, lançamos outra coleção na feira Revestir, dessa vez de porcelanato.
&D: E o projeto internato da Fundação Bradesco que iniciou em 2017? Vocês voltaram lá?
MR: Sim! Já estamos no quinto projeto com eles. Fizemos duas moradas de estudantes, a vila dos professores com 45 casas. Tudo com conforto térmico, ventilação cruzada e muita sombra. Construímos o refeitório para 1500 pessoas, uma cozinha industrial gigante, mas não num modelo de cozinha de escola, de exército. Nesse internato em Canuanã, to, a cozinha é um espaço de encontro e não só funcional. Trouxemos ainda a parte educacional, tornando-a uma escola, pois alimentar também é educar. Agora, vamos fazer a vila com 120 casas para funcionários em Bodoquena, mt. São quatro tipologias: de um, dois, três e quatro quartos, feitas com bloco de concreto e alumínio. Em Canuanã, fizemos os tijolos com o barro local, mas em Bodoquena não será possível.
&D: Nessa escola, a arquitetura promoveu mudanças além das físicas?
MR:A transformação foi gigante. As relações mudaram muito, também melhoraram a qualidade de ensino e a atenção dos alunos. O conforto ambiental trouxe muitos benefícios para quem vive ali.
&D: Marcelo, eu me lembro de te conhecer na CASACOR São Paulo, naquele projeto do fumódromo, em 2003. E depois teve o Clube Cozinha, em 2007, com uma mesa de jantar enorme…
MR: A cozinha era um ambiente todo realizado com materiais trazidos do lixo ou fora de moda. No Fumódromo, tinha a natureza do local apreendida dentro de uma caixa de acrílico. Era uma crítica à indústria do cigarro, embora essa indústria estivesse me patrocinado. As pessoas fumavam numa estrutura circular que remetia a um cinzeiro (risos), sentadas no chão com almofadas de cinza. Era tudo muito simbólico. Uma natureza encapsulada, como se fosse um troféu –uma denúncia visual.
&D: Foram poucas participações, mas sempre muito marcantes.
MR: Porque eu nunca quis estar num lugar de conforto. Sempre que entrei em algum projeto, foi para experimentar, questionar, provocar. Lá atrás, eu já estava praticando– mesmo sem perceber– esse tipo de trabalho mais sensível, mais conectado com o coletivo. O desejo sempre foi esse: construir, ouvir, participar. A arquitetura, para mim, é isso: um espaço de aliança.
&D: Qual é seu sonho hoje em relação à arquitetura?
MR: Criar um módulo de escola de baixo custo, com alta resistência, pouco uso de madeira, replicável em territórios indígenas e quilombolas, para fortalecer a permanência dos povos com educação como ferramenta de luta. Esse modelo está sendo desenhado com o escritório ITA, do Hélio Olga, e apoio internacional. Quero construir mais espaços reais, com amor e continuidade.




















