
POR LÍVIA BREVES – @liviabreves
O dia começa cedo, às 6 h da manhã. Assim já se senta para desenhar. Ele enxerga o desenho como um ofício que exige regularidade e dedicação. “Cumpro minhas oito horas diárias como em qualquer outro trabalho”, afirma, deixando claro que, em sua opinião, o cérebro é um músculo que precisa ser exercitado. A crença de que uma grande inspiração baixa do nada não o convence. “Essa visão acaba desvalorizando o ofício do designer, porque passa a impressão de que basta uma iluminação súbita para surgir uma importante obra. Na verdade, é o oposto: são necessárias horas de trabalho, pesquisa, vivência, conhecer culturas e materiais, olhar para o passado e para o território em que vivemos. É desse processo constante que as ideias realmente nascem”, diz.

Essa abordagem metódica e sensível o acompanha desde o início de sua trajetória. Durante a faculdade de arquitetura, cursada entre o Brasil e a Inglaterra, Pedro entrou em contato com uma forma de pensar o espaço que o modificou: do macro ao micro, das cidades aos objetos. O design deixou de ser uma disciplina complementar e se tornou caminho próprio, que ele trilha de forma autoral.
No retorno ao Brasil, aprofundou os estudos, especializou-se em design de mobiliário e mergulhou de vez nesse universo, que se tornou não apenas profissão, mas também forma de expressão e pensamento. Pedro lembra que, ao lançar sua primeira peça, a banqueta Ubá, ainda carregava dúvidas sobre estar pronto para ser designer. O reconhecimento, no entanto, veio rápido, com a criação sendo premiada na Art Basel Miami, o que serviu como impulso definitivo. Anos depois, a mesma peça recebeu menção honrosa no Prêmio Museu da Casa Brasileira: “Ser reconhecido em casa teve um peso especial”, admite.
Apesar do sucesso, o designer evita amarras estéticas. Não acredita em um estilo fechado e prefere a liberdade de conceber o que deseja, transitando entre épocas, materiais e linguagens. Talvez o traço mais forte de seu trabalho seja justamente a recusa em se limitar. “Gosto de revisitar o que já existe sob novas lentes. Crio a partir da vontade, e não de um compromisso com uma assinatura visual específica.”
A espiritualidade, em especial a umbanda –que o acompanha desde a infância–, atravessa sua produção como fonte simbólica, ética e criativa. “Consigo praticar minha espiritualidade através do meu ofício. Isso torna tudo mais significativo.” Também a matéria-prima brasileira é central em sua obra: madeira, argila, palha da costa (igualmente conhecida como ráfia).
De volta ao Rio após uma temporada paulistana e com o olhar atento à cultura, ao território e à potência do coletivo, Pedro farejou que a cena de design de sua cidade natal carecia de visibilidade. “Sentíamos falta de um evento que representasse o design carioca com a força que ele merece”, conta, incluindo na história os amigos e sócios Philipe Fonseca e Thiago José Barros. Com eles Pedro tirou do papel o dexcolados, movimento que deu origem à dex, feira independente de mobiliário e objetos para a casa. Cinco pilares guiam a curadoria da dex: materialidade, nova artesania, agência, ancestralidade e regionalismo. Na primeira edição, em 2024, o convite foi direto, feito a designers que o trio admirava. Na segunda, houve chamada pública nacional, evidenciando a vontade de ampliar e descentralizar, para, como reforça, “representar o Brasil de verdade”.

A feira não parou por aí, e em 2025 o projeto ganhou novas camadas, com um braço social que doa parte do mobiliário da expografia a pessoas em situação de vulnerabilidade. Também são oferecidos cursos gratuitos, apresentando o design como ferramenta de transformação social. “Queremos mostrar que design não é só luxo. Ele pode, sim, ser inclusão, oportunidade e futuro”, afirma o designer.

Hoje, Pedro vive no Rio e a relação com a cidade, como ele mesmo diz, é de amor e ódio, mas agora com mais amor. “Moro perto da praia, mas nem gosto tanto de ir. O que me encanta é esse equilíbrio improvável do Rio: grande e interiorana ao mesmo tempo. E, claro, o jeito do carioca, que é impossível não amar.” Em 2026, ele completa 10 anos de carreira e alinhava um projeto especial: “Estou preparando algo muito significativo para celebrar essa trajetória. Estou feliz demais com o que está nascendo, mas sem spoilers por enquanto!”, brinca.
















