O artista Vik Muniz apresenta novas séries que cruzam design, fotografia e crítica simbólica em criações que vão do papel ao porcelanato, do lixo à arte de museu
Por Regina Galvão
Publicitário, pintor, escultor, fotógrafo. Entre tantos talentos, Vicente José de Oliveira Muniz, o Vik Muniz, carrega mais um: o de colecionador. De papéis a miniaturas, vale tudo. “Tenho fixação por papel e guardo uma grande variedade de tipos”, conta. A afinidade com o material acabou se convertendo em inspiração para uma nova fase da carreira: a criação de produtos voltados para o mercado de arquitetura e design de interiores.
Em março, a convite da Portobello, o artista lançou durante a Expo Revestir 2025, em São Paulo, a linha de porcelanatos Haptic, que reproduzem o toque do papel. “Pesquisei e vi que não existia um revestimento que trouxesse a sensação da porosidade do material.” A coleção inclui ainda peças menores em tons aquarelados e uma versão de cobogó. A experiência foi tão instigante que Vik demonstrou interesse em montar um forno de cerâmica em seu estúdio, abrindo espaço para novas experimentações.
Aos 63 anos –ele nasceu em 20 de dezembro de 1961–, vivendo entre Rio de Janeiro e Nova York, o paulistano afirma querer se dedicar apenas ao que realmente o interessa. Foi com esse espírito que aceitou o desafio proposto pela amiga Ticiana Villas Boas, sócia da +55 design, de idealizar uma linha de mobiliário para a marca. Mais uma vez, as coleções pessoais serviram de referência para esse desenvolvimento que remete ao universo da costura –uma homenagem à avó costureira que desempenhou papel importante em sua educação artística. Com inúmeros botões armazenados ao longo dos anos, Vik Muniz enxergou no objeto a referência para desenhar um tampo de mesa de centro.
A estética lúdica e afetiva, também estimulada pela visita a uma loja de brinquedos em Paris, se estende às mesas laterais que lembram carretéis de linha, aos pufes que evocam almofadas de alfinetes e aos sofás com costuras aparentes. Tudo em proporções ampliadas e execução em linho, madeira maciça, mármore e lã. “Essa coleção vai além da utilidade. É uma ideia. Nomeei-a Arquétipos porque reconhecemos uma mesa ou uma cadeira em um nível simbólico e linguístico. Móveis habitam nossa memória e nosso repertório visual.”
DOS ESTADOS UNIDOS PARA O BRASIL
A disposição para experimentar novos caminhos é uma constante na trajetória de Vik, que iniciou a carreira artística nos Estados Unidos, nos anos 1980. Decidiu viajar ao país norte-americano depois de receber uma indenização por ter levado um tiro ao tentar apartar uma briga na rua. Lá, aos 28 anos, conquistou a primeira exposição individual em Nova York. Antes, porém, batalhou muito, atuando como bartender, frentista, lavador de pratos e até em demolições de casas. “Meu trabalho é um acúmulo de experiências. Tudo isso me formou como artista.”
Autodidata, filho de um garçom cearense morto no último mês de abril e de uma telefonista, ele começou pintando, depois passou a esculpir até chegar à fotografia. “A maior parte das coisas que eu aprendi foi observando fotografia vernacular, álbuns de família comprados em mercados de pulga ou na internet. Juntei mais de 200 mil fotos”, declarou em entrevista ao site Fronteiras do Pensamento por ocasião do lançamento da série Álbum, em 2014.
No Brasil, ele ganhou projeção nacional ao criar obras para a abertura da novela Passione, da Globo. As instalações foram feitas com sucata do lixão do Jardim Gramacho, na capital fluminense, um dos maiores aterros sanitários do mundo, que foi fechado em 2012. O projeto, realizado com catadores de lixo reciclável, resultou no documentário Lixo Extraordinário, premiado, em 2010, nos festivais de Berlim, na Alemanha, e no de Sundance, nos Estados Unidos, além de ter sido indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2011. Os lucros dessa série, batizada Pictures of Garbage, foram revertidos para o coletivo de catadores. Em reconhecimento a esse trabalho, a unesco o nomeou Embaixador da Boa Vontade, em 2011.
ARTE PARA TODOS
O artista é também o idealizador da Escola Vidigal, no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Inaugurada em 2015, a escola, gratuita, foi concebida para crianças de 4 a 8 anos da comunidade, utilizando a arte e a tecnologia como ferramentas pedagógicas, com o intuito de despertar a criatividade e o pensamento crítico.
Democratizar a arte é compromisso que Vik Muniz persegue. Em 2021, fundou o espaço Lugar Comum, na Feira de São Joaquim, em Salvador, com o objetivo de aproximar criações contemporâneas do público popular. “Acreditar em uma arte acessível, que não seja apenas para as elites, é essencial”, defende ele, cujas obras fazem parte de acervos de museus como Tate Modern e Victoria&Albert, em Londres, Getty Institute, em Los Angeles, mam, em São Paulo, e Museu do Inhotim, em Brumadinho, MG.
Conhecido pela variedade de matérias-primas que emprega em sua produção artística –de lixo e chocolate a açúcar e diamantes–, Vik Muniz aborda a dualidade entre pensamento e materialidade, apostando no potencial de cada um deles. “Uso materiais inusitados porque eles me proporcionam processos diferentes.”
Na série Dinheiro Vivo, ele usou fragmentos de cédulas descartadas pela Casa da Moeda para compor telas que somam os animais das figuras das notas de Real a paisagens do século 19. O trabalho propunha uma reflexão sobre o valor simbólico do dinheiro e esteve em cartaz nas galerias Nara Roesler, em 2023, em São Paulo, e Multiarte, em março de 2025, em Fortaleza.
O interesse por linguagem visual se reflete igualmente em Surfaces (2023-2024), apresentada em São Paulo, Estados Unidos e Hong Kong. A série revisita obras de mestres cubistas como Picasso, Braque e Juan Gris, recriando-as com colagens tridimensionais e depois transformando-as em fotografias. Já em Scraps and Legal Tender, exibida em 2024 na galeria Sikkema Jenkins & Co., em Nova York, o artista monta imagens com base em revistas, fios, lixo e fotos, numa investigação da relação entre valor e memória.
Desde fevereiro de 2024, quem visita o Senado Federal, em Brasília, pode ver o painel fotográfico 8 de janeiro de 2023. Trata-se da foto (com 2,80 x 1,80 m) de um mosaico de mais de 55 m² que o artista criou utilizando cerca de quatro toneladas de detritos –entre estilhaços de vidro, cartuchos de bala e carpete azul– recolhidos após a invasão às sedes dos Três Poderes, na data que dá nome ao trabalho. Como de costume, Vik subverteu o tamanho da obra, reduzindo suas dimensões, por meio da fotografia, para que a imagem do Palácio do Congresso cercado por nuvens pudesse ficar exposta no Salão Azul do Senado, como símbolo da resistência democrática.
Mais de 200 obras do artista, dos anos 1980 até produções recentes, integram a retrospectiva “A Olho Nu”, para a qual Vik criou Concretismo Clássico, da série Relicário, com oito peças de mármore, quartzito e granito. A mostra, que tem curadoria de Daniel Rangel, desembarcou em dezembro no Centro Cultural Banco do Brasil de Salvador, onde fica até março de 2026, depois de ter ocupado as galerias do Instituto Ricardo Brennand, em Recife, entre julho e agosto passados. E mais duas exposições de Vik Muniz estão previstas para 2026: uma no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e outra na Espanha, na cidade de Santander, que inaugurará um centro cultural com o trabalho do paulista que se tornou cidadão do mundo.




















