Duas brasileiras ganham destaque em Milão ao assumirem cargos de liderança em escritórios de arquitetura e design que assinam grandes obras no mundo todo
POR FERNANDA MASSAROTTO, DE MILÃO
ALÉM DA PROFISSÃO, há algo mais –muito mais– em comum entre as arquitetas Mitla Morato e Ana Elisa Borges. As duas brasileiras, a primeira paulistana, de 49 anos, e a segunda carioca, de 43, se destacam em dois dos mais importantes escritórios de design em Milão. Mitla se tornou Senior Partner e Business Development Manager do estúdio de Piero Lissoni, enquanto Ana Elisa é hoje Diretora de Arquitetura e Design do escritório de Patricia Urquiola.
Milão é uma metrópole pequena se comparada a São Paulo e Rio de Janeiro, de onde vieram as moças, que se conheceram em 2011. “Fiz um estágio de 8 meses no estúdio Lissoni e quem me entrevistou foi justamente a Mitla”, relembra Ana Elisa. Anos antes, quando Mitla desembarcou na empresa onde atualmente é sócia, seu primeiro contato foi com Patricia Urquiola, que na época trabalhava com Lissoni. As duas brasileiras trilharam caminhos profissionais semelhantes. Seguiram para a Itália buscando especializaçãoe novos horizontes. O que era para ser um período de estudos virou escolha de vida.
PRÉ-ESTRÉIA DE GALA
A menina que adorava folhear o jornal e admirar os anúncios de empreendimentos imobiliários rendeu-se aos encantos da arquitetura e em janeiro de 2000 chegou a Milão. “Eu tinha terminado a fau [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo] e optei por ir para o velho continente”, relembra a paulistana Mitla, que frequentou um mestrado em Design na famosa Domus Academy. “Foi um ano de descobertas. Eu, que sempre me enxergara como arquiteta, experimentei o mundo do design. Viver o que a cidade respirava durante o Salão do Móvel foi inesquecível.” Não é de estranhar que tão logo o mestrado terminou, ela pediu ao diretor da escola um contato no Lissoni & Partners, onde desejava um estágio em design. O nome pronunciado foi o de Patrica Urquiola, então membro da equipe.
Os anos na graduação deram a Mitla não só a base teórica, mas também a vivência de administradora. “Eu sempre gostei de esportes e acabei fundando a associação atlética da faculdade”, revela a paulistana, que promovia eventos e cuidava da parte operacional. Apaixonada por números, ela mostrou seu poder de organização logo que se instalou no universo de Piero Lissoni. “Ainda me lembro do meu primeiro projeto: um estande para a marca Lema no Salão do Móvel. Incluí uma animação em 3D, algo que ninguém fazia aqui”, observa, contando que colheu elogios do chefe e do cliente.
Já a carioca Ana Elisa, filha de uma arquiteta e de um engenheiro civil e trader, adorava acompanhar as reformas na casa da família, na Gávea. Antes de aterrissar na capital italiana do design, ela realizou estágios enquanto cursava a Universidade Santa Úrsula e teve o privilégio, como gosta de contar, de atuar por três anos no escritório então compartilhado por Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen, o Bernardes Jacobsen –ali organizou o livro Claudio Bernardes & Paulo Jacobsen, sobre os 25 anos dessa parceria (Claudio faleceu em 2001).
“Eu aprendi a fazer projeto executivo, a desenhar banheiros, esquadrias, e tudo isso aumentou minha curiosidade”, relembra. Em 2010, Ana Elisa fez as malas rumo à Itália para um master em Interior Design, no Politécnico de Milão. A decisão de permanecer no país veio com a oportunidade de estagiar com Piero Lissoni, seguida de uma passagem de três anos pelo Cibic Workshop, de Aldo Cibic. “Cheguei ao escritório da Patricia Urquiola dez anos atrás, em fevereiro de 2015, como arquiteta.” No primeiro dia, recebeu a incumbência de fazer um apartamento em Londres. “Passei a Project Manager e há dois anos fui convidada para ser a Head de Arquitetura e Interior Design”, narra Ana Elisa.
OS ANOS DE DESENVOLVIMENTO
Logo o talento de Mitla se fez reconhecer, e suas facetas de organizadora e gestora se equipararam à de projetista. A arquiteta curiosa passou a catalogar, aprendeu a se comunicar com os clientes, implementou planilhas de gestão do time e dos projetos e atualmente se encarrega até de negociar contratos em escala mundial. Não existe nada que ela não queira aprender. Tanto que, em 2008, matriculou-se em um curso de project management. O resultado foi o convite em 2013 para ser sócia. “No ano que vem, serão 25 anos [de escritório]. Quem poderia imaginar?”, questiona. “Eu aprendi muito aqui. O que mais admiro no Piero Lissoni são sua genialidade e sensibilidade projetual, trazendo desfechos para problemas que parecem não ter solução.” O designer italiano ensinou a brasileira a desenvolver sua comunicação interpessoal e a adotar atitudes diplomáticas. “Piero conquista e convence até os mais céticos”, opina Mitla.
Admiração e respeito também estão entre os sentimentos de Ana Elisa por Patricia Urquiola, espanhola que adotou a Itália como pátria. “Uma das características que mais aprecio nela é seu lado questionador. Há sempre uma pergunta a ser feita: ‘Pode melhorar? Dá para encontrar outra solução, outro material?’. Seu lema é evoluir”, analisa a arquiteta carioca, que, com sua disposição para encarar desafios, conquistou o apreço da chefe. É preciso viajar? Ana Elisa está de malas prontas. É preciso desenhar, ir a obras, conversar com os pedreiros? Lá está ela.
“Adquiri muita experiência nos tempos de estágio no Brasil”, afirma. “E, aqui, mostrei que flexibilidade, dedicação e um pouco do nosso jeitinho contribuem para a evolução nas apresentações para clientes, na coordenação de times e na gestão do escritório”, continua a Diretora de Arquitetura e Interior Design do Studio Urquiola. “Aqui eu cresci como arquiteta, explorei tudo. Acompanhei um importante projeto de residência em Melbourne, na Austrália, e supervisionei a realização de várias boutiques da grife Missoni em todo o mundo.”
O espírito empreendedor, a resiliência e a persistência são quase inerentes a Mitla e Ana Elisa. “Eu me vejo como uma ‘problem solver’: não desisto frente à primeira dificuldade”, diz Mitla, que atualmente conduz um projeto para edifícios residenciais de luxo no Brasil. “Depois de tantos anos, fui a São Paulo não como turista ou para visitar meus pais, mas para negociar uma proposta. Foi algo marcante”, conta, ciente de que ser brasileira auxiliou no andamento do projeto.
EXISTE VIDA FORA DO ESCRITÓRIO
O reconhecimento profissional das duas brasileiras resulta não apenas de sua capacidade, mas também da dedicação e da paixão que nutrem por seu trabalho. Movidas pelo desejo de evoluir e pela confiança em transformar desafios em realizações, elas viraram referência em um setor competitivo. E vão além: são também casadas, mães e mulheres que equilibram, com admirável leveza, as exigências da carreira e a vida pessoal. “Não deixo de estar com minha filha pequena e meu marido. Eles são a minha base”, declara Ana Elisa. O mesmo sentimento é compartilhado por Mitla, que, mãe de dois filhos com 14 e 20 anos, ainda reserva algumas horas pela manhã para correr com o marido. “É nesse intervalo de tempo que colocamos a conversa em dia”, admite ela, que prefere não fazer planos para o futuro. “Adoro onde estou, sou uma pessoa que abraça as oportunidades e as vivencia de maneira intensa.”
Ana Elisa revela o mesmo entendimento de futuro. O trabalho com Patricia Urquiola e a nova função de diretora a deixam mais que “honrada”. “Estou muito feliz. Quero ver crescer. Quero participar da evolução do estúdio. Em termos profissionais, gostaria de um dia poder contribuir para que o escritório assine uma obra no Brasil. Quem sabe no Rio de Janeiro –é um sonho.”




















