POR DANIELA HIRSCH
FOTOS ANDREA REGO BARROS
UMA ANTIGA USINA DE ÁLCOOL E AÇÚCAR EM PERNAMBUCO RESSIGNIFICA SEU PAPEL E DÁ ESPAÇO A UM COMPLEXO CULTURAL E EDUCACIONAL BASTANTE SINGULAR, CONECTADO À NATUREZA, A USINA DE ARTE
O poeta das miudezas Manoel de Barros um dia escreveu que “queria construir uma ruína para a palavra amor”. Parece que esse sentimento moveu o casal Bruna e Ricardo Pessoa de Queiroz a reconfigurar a Usina Santa Teresinha, localizada a 150 km de Recife, na região da Mata Sul de Pernambuco, próxima à divisa com o estado de Alagoas.
O lugar chegou a produzir os maiores volumes de álcool e açúcar do país há 70 anos. Uma vila com o mesmo nome se consolidou ao lado da propriedade de 33 hectares, que incluía plantio, usina, destilaria, hangar, estrada de ferro, locomotivas e vagões de carga. Com o encerramento de suas atividades, os moradores vizinhos não só perderam seus trabalhos como a perspectiva de renda, de futuro. “Sabíamos que não era viável retomar o antigo negócio que meu avô tocava. Mas precisávamos levar prosperidade às pessoas. Ao visitarmos Inhotim em 2012, sentimos como uma provocação e entendemos que seria possível transformar a comunidade por meio da educação e do turismo, com a arte envolvida”, conta Ricardo. Foi na viagem ao museu mineiro de arte contemporânea a céu aberto que o casal teve contato com o trabalho de Hugo França. Por uma feliz coincidência, aproximou-se do artista, que aceitou conhecer a propriedade e ali criar uma obra. Esse convite gerou frutos por mais dois anos, até 2015, quando Hugo sugeriu expandir a iniciativa – ganhava forma o projeto Usina de Arte, que germinou a partir dos gigantes bancos de madeira de Hugo em conjunto com o desejo de educar e dar novas perspectivas a toda uma região.
De 2016 em diante brotaram as primeiras ações consolidadas, de festivais de música, gastronomia e performance a um jardim botânico com parque de esculturas assinadas por artistas de diversas regiões brasileiras. Essas intervenções artísticas, somadas à agenda de cursos e à infraestrutura de computadores, máquinas digitais e biblioteca, atraíram o interesse de gente da vila e de localidades próximas. O resultado vem nas palavras de Bruna: “Nós conseguimos levar oportunidades para a população, resgatamos o direito deles de sonhar. Queremos que os jovens formados aqui sejam multiplicadores e tomem decisões, contribuindo para que a Usina de Arte se desenvolva ainda mais, porém sem perder sua vocação atual”.
SEMENTES REVOLUCIONÁRIAS
Uma das premissas dos idealizadores da Usina de Arte era (e ainda é) criar uma dinâmica entre artistas convidados e comunidade para que todos se sentissem envolvidos nos processos de concepção das obras. Cada convite feito pressupunha alguns dias de hospedagem no local. Quem deu início a esse processo foi o paraibano José Rufino, que também ocupou o cargo de curador da Usina de 2016 a 2019.
Suas duas instalações tiram partido do corpo industrial do lugar e de seus elementos. Em parceria com moradores, ele explorou ferramentas inutilizadas, peças enferrujadas e sobras de madeira para dar forma às criações, como em Tempus Fluvium, que ocupa a fachada do antigo hangar e reproduz – por meio de brocas, parafusos, chaves de fenda e outros resíduos – o traçado do rio Jacuípe. Dentro do galpão, agora batizado de Hangar José Rufino, o artista reconfigurou o espaço com materiais do antigo almoxarifado, instigando a reflexão sobre as histórias dos trabalhadores e suas famílias, seus sacrifícios e esforços em torno do funcionamento da usina. Isso tudo virou arte!
Mais tarde, outros artistas materializaram suas ideias em vários pontos do terreno, sempre em harmonia com a mata existente e reflorestada. O verde ora emoldura, ora é parte integrante da obra. Entre os exemplos estão os conjuntos Conversadeiras, da carioca Claudia Jaguaribe, simultaneamente pontos de descanso e de contemplação e diálogo. Os artistas capixabas Maria Tereza e Thiago Sobreiro uniram talentos para preparar Módulos Espelhados, estrutura geométrica que estimula a interação com o espectador. Já a impactante Diva, da pernambucana Juliana Notari, ocupa a encosta de um dos morros sem vegetação nativa justamente para evidenciar a violência sobre os corpos femininos, feridas abertas seculares. Outras criações carregadas de críticas históricas e estruturais são as esculturas de bronze do paulista Flávio Cerqueira. Uma delas, já apresentada na Pinacoteca de São Paulo, está no meio de um dos lagos: Tinha que Acontecer (Cabeça de Bandeirante).
A diversidade de temas entre as mais de 40 obras impressiona. O garimpo alia antenas ligadas e oportunidades, como detalha o atual curador, o francês Marc Pottier: “Com minha chegada em 2019, demos continuidade ao trabalho de José Rufino, mas passamos a adquirir obras apresentadas em outras exposições e também de artistas estrangeiros. Temos evoluído num contexto mais internacional. Isso inclui visitas frequentes de Bruna e Ricardo a parques de esculturas mundo afora e a presença em eventos de destaque no campo das artes. E quando surge uma chance de adquirir algo alinhado com os conceitos da Usina de Arte, eu reforço como uma oportunidade única”.
O especialista acredita que a força do projeto reside tanto no diálogo com a comunidade, na valorização da cultura do Nordeste e de artistas locais, como na imersão in loco que eles estimulam. Juliana Notari, por exemplo, passou quase um ano lá, durante a pandemia, antes de inaugurar Diva.
A estreia de Marc Pottier como curador começou com Paisagem, de Regina Silveira. A instalação foi montada para a Bienal de Arte de São Paulo de 2022 e, desde 2023, faz parte da coleção da Usina. Trata-se de um labirinto de vidro com impressão digital de tiros, referindo-se à violência diária cotidiana.
Entre os talentos internacionais que já deixaram sua marca no parque pernambucano de esculturas figura, por exemplo, o chileno Alfredo Jaar. Dele é o letreiro de neon verde com uma frase do filósofo italiano Antonio Gramsci, instalado no topo da fachada da destilaria desativada. A artista performática iugoslava Marina Abramovic inaugurou no começo de 2024 a obra monumental Generator. No alto de uma colina, um enorme caixote de 25 m de comprimento por 3 m de altura e 2,5 m de profundidade serve de apoio para pedaços de quartzo mineiro posicionados intencionalmente em diferentes pontos, a fim de permitir a interação entre o público e os cristais, envolvidos pela natureza e pelo silêncio.
O carinho e a admiração com que Marc fala da Usina faz com que uma pergunta venha naturalmente: e os próximos passos? Na resposta, uma reflexão e caminhos sinalizados: “Eu acumulo uma experiência em diversos continentes, no Japão, nos EUA, na Europa, mas esse projeto é um dos mais inteligentes que já encontrei. Porque tem essa narrativa, esse laço humano tão forte, tudo tem significado, há um respeito total sobre a arte e a comunidade. Agora estamos em contato com o arquiteto japonês Tsuyoshi Tane, que também é poeta e filósofo, para conceber a parte urbanística da usina. Ele poderá unir nesse trabalho suas paixões pela arte contemporânea, música, natureza e arquitetura”.
A UNIÃO FAZ A FORÇA
O trabalho cuidadoso e consistente que vem sendo realizado há uma década na Usina de Arte fez barulho na vizinhança. Ela está localizada no município de Água Preta, um dos 24 que compõem a Mata Sul de Pernambuco. A intenção de impactar positivamente a comunidade local reverberou nas cidades próximas e o interesse por parte das demais populações em participar das atividades por lá foi natural.
“A gente entende que a Usina é exemplo, é motor para transformações… Trocamos experiências com os demais grupos da região. Conseguimos trazer o Sebrae para cá, com o programa Líder. A ação mobiliza as lideranças locais para que a gente cresça junto. Temos um enorme potencial turístico que precisa ser desenvolvido”, comenta Bruna.
Além das trilhas e cachoeiras, ela cita fazendas de cacau para produção de chocolate, de búfala para fabricação de queijo. Isso pode ser um motivo de interesse turístico, combinado com visitas à Usina de Arte, caminhadas e muito mais. Só que a estrutura de hotelaria, restaurantes e outros serviços deve expandir. “Estamos sempre abertos para escutar outras práticas e compartilhamos as nossas. Se a gente estiver juntoe se organizar, seremos mais fortes”, conclui.
QUANDO O SONHO SE CONCRETIZA
Arte e preservação se unem à educação da maneira mais plural possível no projeto. O que no passado funcionava como escritório hoje é uma biblioteca com mais de 5 mil livros, disponíveis para consulta por qualquer interessado que a visite. Além desse acervo, a Usina disponibiliza computadores a serem utilizados nos cursos online de programação, tecnologia e outras áreas técnicas.
Há um laboratório, o Fab Lab, equipado com impressoras 3D e cortadoras a laser, assim como parcerias com escolas locais, para incluir novas práticas pedagógicas, como aulas de música. “Com essa infraestrutura capacitamos os jovens, dando a eles a chance concreta de realizarem seus sonhos e serem capazes de transformar a comunidade. Aqui eles aprendem conceitos importantes de empreendedorismo e também de educação financeira”, diz Janecleide Alves, coordenadora da biblioteca e do Fab Lab.
Hoje, a juventude que frequenta o braço educacional sente que faz parte da Usina, as decisões são conjuntas, assim como as análises e as alternativas em busca de melhores soluções. Quando aparecem eventos culturais fora da região, a Usina de Arte viabiliza a participação, com transporte e alimentação incluídos nas excursões. Isso é outra forma de ampliar o repertório desse público. “A arte é essa mágica de alargar o horizonte das pessoas”, reflete Ricardo. E sua esposa completa: “É libertador o que a arte faz. A arte transformou minha vida e de toda a comunidade, todos são impactados. As pessoas vão encontrando seus próprios caminhos através do projeto”.



















