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O AÇÚCAR E A CABEÇA

Nas mãos de Caetano Dias, o açúcar deixa de ser apenas matéria: é um campo de perguntas sem respostas definidas, onde cada descoberta abre caminhos para os novos questionamentos sobre identidade, desejo e existência.

POR MARCOS ROSA

NAS MÃOS DE CAETANO DIAS, O AÇÚCAR DEIXA DE SER APENAS MATÉRIA: É UM CAMPO DE PERGUNTAS SEM RESPOSTAS DEFINITIVAS, ONDE CADA DESCOBERTA ABRE CAMINHO PARA NOVOS QUESTIONAMENTOS SOBRE IDENTIDADE, DESEJO E EXISTÊNCIA

Quando a luz toca as cabeças que Caetano Dias esculpe, algo singular acontece. As esculturas, de açúcar armado, carregam em si a dualidade entre a fragilidade do material e sua capacidade de permanência. O artista, nascido em Feira de Santana, na Bahia, fala de sua relação com a matéria: “Ela me provocou, me fez uma série de perguntas, e eu tratei de buscar essas respostas, que geraram outras perguntas”.

A ideia das cabeças surgiu da resposta frustrada que o açúcar ofereceu a uma de suas experiências. Caetano tentou criar um São Jorge, mas a matéria não obedeceu. “Ela migrou lentamente de forma, virou uma grande poça sólida e vítrea, estendida no chão, disforme.” Resultado que o levou a investigar mais a fundo o comportamento da substância e suas propriedades.

O artista experimentou diferentes pontos de fusão até encontrar um equilíbrio que permitisse unir os grãos de açúcar sem dissolvê-los completamente. “Descobri que podia criar uma espécie de açúcar armado, como o concreto armado: os grãos atuando como brita e a parte derretida como argamassa.” Para além das exigências técnicas, o material escolhido por Caetano carrega significados profundos. “Dizem que o açúcar é mais viciante que a cocaína.”

Assim, da experimentação constante e das potências técnicas e poéticas do açúcar, nasceu a série das cabeças: elas se equilibram entre desejo e compulsão, colocando o espectador frente a frente com de uma materialidade oscilante, que sempre reage ao ambiente. “A vida é instável, nós somos efêmeros, e essa instabilidade nos permite também ser instáveis, na medida em que a poética demanda instabilidade para que continue viva.”

Essa relação entre a impermanência vital e o desejo enquanto motor de experimentação, Caetano encontra em sua própria biografia. “Meu pai fabricava vinho de jurubeba e cachaça. Eu tinha 3 ou 4 anos. Desde aquela tenra idade, eu precisava sentir as coisas da vida. E numa dessas eu resolvi abrir a tarraxa, que é o nome que se dá à torneira feita de madeira em uma dorna, um barril muito grande, de 1000 litros para cima. E eu abri a tarraxa, pus minha boca abaixo da saída da cachaça e tomei um pileque. Com 3 ou 4 anos, foi minha primeira ressaca, quase meu coma alcoólico, porque repeti o mesmo com o vinho de jurubeba. Acho que eu me embriago com a vida desde pequenino.”

Embriaga-se, faz questão de lembrar, não com vinho europeu, mas com o vinho sertanejo, o vinho de jurubeba que é do agreste. “Eu me sinto um sertanejo.” Condição fundamental para entender a série das cabeças, “que é um retrato etnográfico, talvez do povo brasileiro”, como explica: “Copio literalmente o rosto de uma pessoa, mas o destituo de alguns referenciais, como cor de pele ou tipo de cabelo. As pessoas passam a ter quase sempre a cor do açúcar, que varia porque faço questão de não manter um controle total sobre ele. Deixo que o material se manifeste segundo sua própria vontade enquanto elemento da natureza”.

O açúcar preserva sua potência simbólica de ser o objeto que suscita desejo e compulsão. “Imagino que o grau de compulsividade do usuário de açúcar seja absurdo, e esse desejo é relacionado à desconstrução da identidade.” Assim, o retrato constituído pelas cabeças desconstrói a própria etnografia, “que desconstrói, de certo modo, os sistemas de classificação, porque põe em xeque todo o sistema de classificação com o qual o mundo vem tentando controlar o ser, o desejo, a existência humana”. 

Marcos Rosa é doutor em História da Arte pela Unicamp, professor, pesquisador e crítico de arte independente

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