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MISSÃO DIPLOMÁTICA

À frente da Etel, marca fundada por sua mãe, a empresária Lissa Carmona assumiu o papel de embaixadora do design brasileiro. Em palestras e exposições realizadas em diversos países, ela apresenta ao mundo o que a nossa tradição de mobiliário tem de melhor

À frente da Etel, marca fundada por sua mãe, a empresária Lissa Carmona assumiu o papel de embaixadora do design brasileiro. Em palestras e exposições realizadas em diversos países, ela apresenta ao mundo o que a nossa tradição de mobiliário tem de melhor

POR LÚCIA GUROVITZ – @luciagurovitz

Em 1994, já formada em administração de (fgv), Lissa Carmona (@lissacarmona) se viu diante de dois caminhos: iniciar um mba no exterior ou adiar o curso e ajudar a mãe, a designer Etel Carmona, a organizar sua primeira participação em uma feira internacional de mobiliário, a icff de Nova York. Venceu a segunda opção, e o mercado financeiro perdeu uma profissional promissora –já o design nacional ganhou uma embaixadora incansável. “Expor fora do Brasil, naquela época, era uma burocracia enorme. Mesmo assim valeu a pena, pois levamos peças da minha mãe e da designer Claudia Moreira Salles. Foi um sucesso”, lembra.

Na volta da viagem, Etel propôs que a filha se tornasse sua sócia, e esta aceitou. “Comecei a estudar o que era design e percebi que o Brasil havia sido um gigante nessa área”, conta Lissa. No início dos anos 1990, no entanto, pouco se falava sobre as criações de Joaquim Tenreiro, Jorge Zalszupin (@casazalszupin), Lina Bo Bardi (@institutobardi), Oscar Niemeyer (@f_oscarniemeyer) e outros mestres do modernismo nacional. Móveis emblemáticos dos anos 1940 a 1970 estavam fora de produção. “Claudia e minha mãe representavam uma fase de renascimento, ao lado de nomes como Carlos Motta e irmãos Campana, mas existia uma história anterior que precisava ser resgatada.” Atual ceo da Etel (@etel.design), Lissa é uma das figuras mais proeminentes do movimento que recuperou esse legado e colocou o design brasileiro, tanto o moderno como o contemporâneo, em destaque no mapa global.

CALENDÁRIO BEM APROVEITADO

Para falar apenas de 2025, foram três exposições importantes que ela estruturou além-mar. Começou, em abril, com Oscar Niemeyer in Italia, em parceria com a Fundação Oscar Niemeyer, durante a Semana de Design de Milão. Simultaneamente, inaugurou Claudia Moreira Salles: A Tribute to Craftsmanship, que, meses depois, em setembro, foi remontada na Villa del Grumello para o Festival de Design do Lago de Como. Por fim, entre setembro e outubro, foi a vez de Warsaw –São Paulo– Warsaw, retrospectiva da obra de Jorge Zalszupin em Varsóvia, terra natal do arquiteto e designer. “Quando organizo esse tipo de mostra, gosto de falar de passado, presente e futuro. Quero ressaltar que o Brasil continua sendo uma escola muito relevante nos dias de hoje.”

Cadeira de balanço Rio na mostra Oscar Niemeyer in Italia.

A fim de contar a história do mobiliário exposto, Lissa constrói um panorama cultural amplo, composto de textos, fotos, documentos, vídeos e bate-papos, entre outros recursos. Ela aplica o conhecimento acumulado em três décadas de pesquisas e ainda se articula com uma rede de especialistas, convidados a incrementar a narrativa. Em Milão, o arquiteto e escritor Francesco Perrotta-Bosch, curador de Oscar Niemeyer in Italia, participou, juntamente com Lissa, de um debate promovido pelo jornal La Repubblica com personagens notáveis do design internacional. Em Varsóvia, o arquiteto e curador Guilherme Wisnik foi escalado para explicar como era o Brasil que Zalszupin conheceu nos anos 1940, após fugir da perseguição nazista na Europa.

No caso de Warsaw –São Paulo– Warsaw, a empresária assina a curadoria com a arquiteta polonesa Maria Murawsky, que se apaixonou pelo mobiliário de Zalszupin antes de saber que este era seu conterrâneo. Realizada na Villa Gawrońskich, sede da Fundação Visteria, instituição de apoio às artes, ao design e ao artesanato da Polônia, a mostra se desdobrava em diversas salas, nas quais os visitantes podiam descobrir a abrangência da obra e os principais episódios da vida pessoal do arquiteto e designer. “Ver o Jorge reconhecido em seu país de origem é uma emoção sem tamanho”, admite Lissa. Seu empenho para concretizar a mostra reflete sua profunda amizade por Zalszupin: durante 20 anos, os dois trabalharam juntos na reedição dos móveis projetados por ele entre as décadas de 1940 e 1970. Após a morte do designer, Lissa se mobilizou para transformar em museu a residência onde ele vivia com a família, em São Paulo. Assim foi fundada, em 2021, a Casa Zalszupin.

DE VOLTA À CENA

Se hoje a Etel está consolidada como marca internacional (Lissa divide seu tempo entre as galerias de São Paulo e Milão), boa parte desse prestígio se deve às reedições de mobiliário moderno que capitaneia. “Tudo começou em 1998, quando os herdeiros da Branco & Preto nos procuraram com a intenção de voltar a produzir a poltrona MF5, de 1953”, conta a empresária. O pedido levou ao desenvolvimento de uma metodologia que combina rigor técnico, ou seja, o resgate de desenhos originais, e respeito aos aspectos legais. “Fazemos um acordo formal com as fontes primárias: famílias, fundações e institutos que detêm os direitos das peças”, explica. Desse modo, móveis criados por Gregori Warchavchik, Joaquim Tenreiro, Lasar Segall, Lina Bo Bardi, Percival Lafer e Zanine Caldas, entre outros, retornaram às vitrines. Em suas viagens para apresentar o trabalho de nossos criadores e nas palestras que realiza pelo mundo, a embaixadora do design brasileiro tem o que mostrar: “Você não consegue transportar uma obra de arquitetura de um país para outro, mas um móvel sim. Por meio do design, a gente coloca o Brasil numa posição de grandeza, à altura de nossa tradição”.

FOTO STUDIO PION

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