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O QUE É DESIGN

SE HÁ uma coisa que o fim do modernismo nos ensinou é que as inquirições envolvendo o espírito artístico impossibilitam uma resposta única.

SE HÁ uma coisa que o fim do modernismo nos ensinou é que as inquirições envolvendo o espírito artístico impossibilitam uma resposta única. Não existe norma ou fórmula inflexível –de modo cada vez mais veloz, as perguntas que se acumulam em meio a relações interdisciplinares tornam quase impossíveis definições como esta sobre o design. A dinâmica entre forma e função estabelecida pelo arquiteto Louis Sullivan deixou de ser questão hierárquica ou excludente, e o papel do designer não se restringe somente a atendê-las.

É crucial entender que o termo design evoluiu, se multiplicou e diversificou –a indústria do móvel não trata apenas do negócio, nem o autor apenas da criação. Tudo reflete as mudanças sociais, culturais, ambientais e tecnológicas em suas infinitas combinações, especialmente quando o estado político e ecológico é de tamanha instabilidade.  justamente nessas horas, experimentar, ousar, especular e correr riscos se torna ainda mais importante. Caso contrário, a nostalgia pode conduzir ao escapismo, a arquétipos perigosos de “tempos melhores” –uma inflexão, e não uma reflexão. Se é verdade que estilos do passado são capazes de encantar e estimular o resgate de materiais e texturas por conexões sensoriais e emocionais, também é certo que eles podem formar memórias estáticas, encerradas em si. Não podemos esquecer que cabem ao design o olhar crítico e o reposicionamento desses estímulos no tempo presente, o que traz razão ou propósito à ideia de um retorno estilístico.

Foi com esse espírito que Lina Bo Bardi apresentou o conceito de presente histórico, propondo outro encontro possível com o passado, um que acompanhe a vida de todos os dias: “É preciso se liberar das amarras, não jogar fora simplesmente o passado e toda a sua história; o que é preciso é considerar o passado como presente histórico. O passado como ainda vivo é um presente que ajuda a evitar as arapucas (…). Possibilitando que se reviva o passado como presente, pode-se descobrir novas coisas,não como lembranças”.

Diferentemente de muitos, não acho que o design seja uma ferramenta de transformação disso ou daquilo, ele não é uma fórmula pronta e nem sempre os resultados são suficientes. Design é, antes de tudo, um método. Design é projeto, e projeto é a materialização da ideia. Somando tudo isso, acredito que o design pode oferecer encantamento por seu primor, beleza, história, arte, inteligência, investigação, inovação, BRUNO SIMÕES sensações e estímulos – tudo junto e misturado. O design tem um contexto laboral e outro laboratorial – ele desempenha algumas funções claras, mecânicas, e outras nem tanto; responde uma pergunta enquanto levanta outras. Nesse processo contínuo, ora cíclico, ora incerto, a melhor definição que sou capaz de encontrar é que o design é um retrato material de seu tempo.

Bruno Simões é designer, arquiteto, curador de design e empreendedor cultural, fundador de eventos como a feira MADE

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