Arquiteto e designer, Nicholas Oher transforma memórias, cores e ousadia em projetos que dão voz à diversidade no design brasileiro
POR ROBERTO ABOLAFIO JUNIOR
ELE É negro, queer, natural de Cuiabá, nascido em uma família com cinco irmãos criados pela mãe. Na infância e adolescência, o dinheiro era pouco, é verdade, mas curiosamente havia pérolas. A mais antiga reminiscência do arquiteto Nicholas Oher é ver suas avós colocando brincos e colares com as tais contas –quase como “a lágrima clara sobre a pele escura”, para citar Caetano Veloso e Gilberto Gil. E é essa lembrança remota que o levou a criar, neste ano, a cadeira Pérolas (editada pela Samba), em que o assento redondo ganha pés e encosto compostos de bolas, tudo em madeira natural ou ebanizada. A peça expressa uma feminilidade bonita de se ver.
Com alma lúdica, Nicholas nunca teve problema em ser queer em sua casa e queria inicialmente cursar moda. Passou no vestibular para a Universidade Federal de Santa Catarina, mas, como tinha apenas 17 anos, a mãe não permitiu que ele fosse morar em outra cidade. Foi em uma instituição privada, a Universidade de Cuiabá (unic), que ingressou na graduação em arquitetura. Na turma, sentia-se deslocado, primeiro porque não havia ninguém de sua cor e, depois, porque não encontrava muita gente com jeito similar ao seu. Acabava fazendo mais colegas entre as publicidade e propaganda. Mas houve ao menos um grande amigo no curso escolhido, Fábio Marx, que logo desistiria da faculdade para atuar como designer de interiores em Curitiba.

E para lá Nicholas migrou ao se formar. Trabalhou em diferentes escritórios, mas não acreditava na arquitetura e no design que faziam. Bem que uma professora em sua terra natal havia atentado: seria provável ele não se adaptar com facilidade ao que já era feito regularmente, pois tinha um estilo muito particular. Em 2018, Nicholas e Fábio, mais a arquiteta Paloma Bresolin, fundaram o OHMA Estúdio, especializado em cores, arquitetura, interiores e design de produtos, dando materialidade a emoções, desejos e memórias. Fábio saiu para ser influenciador digital, mas os outros dois mantiveram o negócio.
Já ganharam vários prêmios nacionais e participaram de CASACOR em Curitiba, Cuiabá e, em 2025, São Paulo. Conhecida pelo trabalho com cores, a dupla acredita que a tinta é o elemento mais barato em uma construção e pode ser trocada livremente, uma vez que as pessoas não são atemporais. Gosta-se do marrom em um dia e em outro poderá ser a vez do verde. Para eles, os clientes, em geral, têm longe do lugar-comum, e cabe aos profissionais pinçá-los de dentro dos mesmos para usar nos ambientes. Nicholas e Paloma procuram criar narrativas em seus projetos, privilegiando as formas fluidas e orgânicas em detrimento da linha reta. “Afinal, tudo já é tão plano e quadrado”, divaga o cuiabense.
Design, no entendimento de Nicholas, é um punhado de possibilidades. Ainda menino, ao observar os sapatos que a mãe comprava, começou a notar que uma determinada função poderia se servir de diferentes formas –um calçado era bem diferente do outro, mas todos tinham a mesma finalidade. Agora, além de itens elaborados com a sócia, ele se prepara para lançar novos produtos baseados na mesma estética da Pérolas, que faz pensar naquela máxima: “Há cadeiras feitas para sentar; outras, só para olhar”. Entre as novidades, devem vir um banco e um totem. Hoje com 31 anos, o jovem profissional faz de ousadia sua palavra preferida e pensa, em daqui a uma década, quem sabe, não ter de provar mais nada para ninguém e então experimentar maior estabilidade financeira. “Ouço ‘nãos’ todos os dias, mas sigo em frente”, diz. Inicialmente ele tinha certa preocupação com as roupas que usava na presença de clientes, tendendo para o social.
Hoje veste o que quer, uma saia até, e isso não impacta na relação com quem busca o escritório para encontrar soluções em trabalhos diversos. “Nunca se cale diante das coisas que te ferem, porque a voz é nossa maior ferramenta de existência” é uma frase que Nicholas costuma formular. E assim vai furando a bolha branca que envolve a arquitetura e o design. Aos poucos.
FOTO DE CAPA ANDERSON ÂNGELICO/DIVULGAÇÃO

















