O futuro é ancestral. O design é ancestral. É como estar indo para frente, mas acabar atropelado por um passado mal resolvido caso não se olhe no retrovisor. Não haveria o Cubismo de Picasso sem as máscaras africanas, assim como não haveria Tarsila sem os povos originários do Brasil.
A partir de estudos do DNA do brasileiro, constatou-se que nossas mitocôndrias – organelas celulares que evidenciam as matrizes étnicas de raiz – são as mais “misturadas” do mundo. Isso se traduz em um registro genético altamente diversificado, que produz nossa etno-bio-cultura com tantas faces e matizes de miscigenação e fluxos gênicos, atestando a amorosidade na base criativa. Mente flexível e resiliente. Design arquitetural que faz, da reta, belas curvas em hipérboles barrocas.
Brasileiro designa fazedor-empreendedor-maker-artífice, sugerindo um certo homo laborans que veio fazer e faz a Terra Brasilis. O ‘eiro’ do brasileiro marca um artífice e artesão, como o canoeiro indígena que “só com um pau faz uma canoa”, num design admirado por todos.
A conscientização sobre a contribuição indígena e africana para a cultura brasileira é fundamental para que se reconheça a pluralidade de raízes na formação do designer brasileiro. Outro aspecto significativo é a dimensão lúdica, que frequentemente envolve uma certa subversão do uso habitual de algum objeto ou artefato, mecanismo ou conhecimento. Parte de uma ideia de utilização ou de solução em que é preciso (re)inventar o recurso não existente, com liberdade aplicada a um pensamento inovador. Nossa herança ancestral e endógena resulta em atos de sociabilidade necessariamente construídos com base na empatia. Poderíamos falar, então, de um “design empático”, voltado para o outro, sendo receptivo a nosso humor e curvas? Para os indígenas e africanos, o objeto só é existente em sua sacralização, quando se torna vivo e ganha alma. Logo, não existem objetos e, sim, artefatos – design vivo, orgânico e aberto a transacionar com o outro, que o acopla quase como um continuum corporal. Um design com coração e alma, que leva nosso cérebro a criar uma emoção diante do objeto.
O design ativa nossa inteligência emocional no ato de criar, reforçando os circuitos das células nervosas para nos permitir ver e sentir (o outro). Nesse sentido, o design é empático por natureza, pois não prescinde jamais do outro; compreende um diálogo com o outro, dentro das potencialidades do cotidiano e do ordinário, não produzindo objetos, mas, sim, acontecimentos. Um exemplo é o famoso Manto Sagrado Tupinambá, que não é apenas uma obra de arte: ele tem função sagrada e, portanto, se constitui em design sofisticado. É um instrumento de cura, como nos alertou o cacique tupinambá ao receber o item que estava “expatriado” na Dinamarca: “Sim, os objetos de arte são sagrados e portam alma”.
Nossa gigantesca diversidade étnica e cultural só se converterá em legado se o Brasil se reconhecer, como um neurônio-espelho, nesse caldeirão especular de complexidades múltiplas. Valorizar a ancestralidade brasileira é essencial para a construção de uma identidade nacional que inclua todas as suas partes e, logo, de uma sociedade mais justa. Uma sociedade que celebra, com a mesma alegria natural de nossa alma ancestral, as contribuições dos vários saberes, dos modos de fazer e das expressões artísticas técnico-estéticas de todos os nossos grupos constituintes.



















