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COM O QUE SONHAVA ENRIQUE LIPSZYC?

Empresário e professor, ele fundou a Escola Panamericana com a ideia de preparar artistas para exercerem profissões criativas. Mas foi além, criando obras de arte que surpreendem pelas reflexões nelas embarcadas.

POR MARCOS ROSA

EMPRESÁRIO E PROFESSOR, ELE FUNDOU A ESCOLA PANAMERICANA COM A IDEIA DE PREPARAR ARTISTAS PARA EXERCEREM PROFISSÕES CRIATIVAS. MAS FOI ALÉM, CRIANDO OBRAS DE ARTE QUE SURPREENDEM PELAS REFLEXÕES NELAS EMBARCADAS

Com os pés firmes em seu tempo e os olhos voltados para o futuro, o empresário argentino Enrique Lipszyc deixou sua marca no cenário brasileiro com sua principal obra: a Panamericana Escola de Arte e Design. Nascida em Buenos Aires em 1955, a instituição chegou a São Paulo oito anos depois. Trazia a inovadora proposta de formar artistas como profissionais práticos, aptos a atuar em publicidade, fotografia, design de interiores e outras áreas em que a criatividade visual supria as necessidadesde uma classe média em expansão.

Inspirada na Bauhaus – escola de artes aplicadas fundada em 1919, na Alemanha, pelo arquiteto Walter Gropius –, a Panamericana não contava com acadêmicos, mas com especialistas do mercado, gente que dominava o cotidiano, os desafios e os recursos exigidos por suas profissões. Atenta às transformações históricas e às novas tecnologias, a Panamericana manteve-se alinhada às mais avançadas inovações das carreirascriativas. Assim, o empresário acabou se tornando conhecido por sua pedagogia vanguardista, seu pragmatismo e sua ousadia.

Uma faceta complementar de sua personalidade foi revelada pouco tempo atrás, com a exposição O Criador e Sua Obra, que celebrou os 60 anos da Panamericana. A mostra, com mais de 200 telas e desenhos produzidos por Lipszyc entre 2012 e 2020, aconteceu em 2023, três anos após sua morte. Durante toda a vida, ele manteve uma prática meticulosa e constante de desenho e pintura. Suas obras, verdadeiros palimpsestos, acumulam reflexões que o acometeram ao longo dos anos e o levavam a alterar ou acrescentar detalhes em trabalhos realizados apenas para seus olhos e para os dos mais próximos, como a família.

Enquanto atuava publicamente como empresário e professor voltado ao novo, na vida privada Lipszyc concebia obras que revelam uma meditação profunda sobre temas atemporais e arcaicos, como a psicologia do desenvolvimento civilizatório e o surgimento da humanidade. Sua mitologia do casal primordial dialoga com temas caros a intelectuais e artistas do pós-guerra, figuras marcadas por leituras psicanalíticas e pela defesa da arte e da cultura contra a violência do século 20. Usando tinta e lápis, Lipszyc retoma a fábula do surgimento da humanidade abordada por Sigmund Freud em Totem e Tabu, reunião de quatro ensaios publicados originalmente entre 1912 e 1913. Na hipótese colocada pelo psicanalista, uma horda masculina primitiva vivia sob a tirania de um pai que monopolizava mulheres e prazeres. A revolta dos filhos, que culmina no assassinato do pai, resultou no estabelecimento do tabu do incesto e no ingresso da humanidade na civilização, marcada pela culpa e pela interdição.

Na mitologia de Lipszyc, porém, culpa e interdição não têm lugar. Nas obras que deixou, os primatas primitivos descobrem sua natureza humana na procura incessante por uma figura enigmática e plena: a mulher, retratada com uma expressão impenetrável e satisfeita. O homem, na visão do artista argentino, é incompleto, e sua busca por prazer é o motor de criação da humanidade, a saída do reino animal e, consequentemente, a invenção da civilização. 

Para Lipszyc, não havia progresso sem prazer, o que revela uma intensa reflexão sobre o saber e a técnica – temas essenciais para o professor que fundou a Panamericana e ensinou o Brasil a fazer publicidade e design. Sua arte demonstra que aprender, ensinar e trabalhar não deveriam ser atividades desprovidas de alegria, gozo e erotismo. Descobrir uma forma de atuar no mundo profissional era, para ele, também descobrir uma forma de alcançar prazer e contentamento. Uma busca ininterrupta, jamais plenamente satisfeita, porém sempre gratificante.

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