O mundo no papel

Há quase 2 mil anos, a escrita da história da civilização passa por esse material.

Por Edson Valente

Imagens: Milena Yuki Watabane, Maud Vantours

Um ditado popular afirma que “o papel aceita tudo”. A conotação desse provérbio não é positiva, uma vez que ele sugere que, entre os conteúdos a preencher uma folha em branco, estão também os de finalidades não tão nobres. Mas é assim com tudo, ou quase tudo, que tem contribuído para erigir a civilização humana ao longo dos séculos, estabelecendo infinidades de traços constitutivos que fogem à lógica maniqueísta de um conflito entre bem e mal absolutos.

No território entre os extremos, sobretudo, é que se faz a história. E as margens que delimitam esse caminho se ampliam a perder de vista. O que cabe em uma folha de papel vai muito além da pigmentação que venha a ocupá-lo. Desde que surgiu nos moldes que o conhecemos hoje, há quase 2 mil anos, o papel assumiu um protagonismo no registro de nossas conquistas, aspirações, devaneios e confabulações, unindo o que há de mais sagrado e mundano na concepção da espécie.

Foi em 105 d.C. que T’sai Lun, funcionário da corte imperial chinesa, aperfeiçoou tentativas anteriores de fabricação do material usado para a escrita de documentos e alcançou o feito que faz ecoar seu nome até os dias de hoje. Lun é conhecido como o inventor do papel. Sua fórmula constava de uma mistura umedecida de cânhamo, casca de amoreira e restos de roupas, entre outras fontes de fibras vegetais. Essa massa era batida, peneirada e deixada ao sol até se transformar na seca e fina camada que chamamos de folha.

Aparentemente frágil, mas que alicerça impérios. Lembremo-nos, por exemplo, do impacto provocado pela destruição de 500 e 700 mil rolos de papiro – um ancestral do papel, por assim dizer – da Biblioteca de Alexandria, no ano de 48 a.C. Permanece ainda algum mistério sobre as circunstâncias que deram cabo do maior acervo de história e ciência antigas, dizimado em embates na busca pelo poder.

Afinal, é disso que estamos falando: de um domínio que passa pela detenção do conhecimento que se espalha pela combinação de fibras e no entrelaçamento das possibilidades oferecidas pelo substrato papeleiro.

São inúmeros os seus usos. E seus tipos. Embora vivamos atualmente a era da transformação digital, em meio a tantas inovações o papel também se reinventa – e se recicla, reforçando o círculo virtuoso da preservação ambiental.

“No Brasil, 70% do papel é reciclado”, dimensiona Fabio Mortara, presidente da Two Sides Brasil & América Latina, organização que reúne empresas da cadeia de suprimentos da comunicação gráfica e de embalagens celulósicas.

Na opinião de Mortara, o futuro do papel se define principalmente a partir de duas vertentes de utilização: na manufatura de livros e na de embalagens. Este segundo fim é potencializado pela necessidade de minimizar a quantidade de resíduos plásticos no planeta e substitui-los por materiais biodegradáveis.

“O mercado de papel gráfico tem se transformado desde a popularização dos meios digitais, sendo que a pandemia contribuiu para acelerar algumas das tendências anteriormente existentes, como a da digitalização”, afirma Guilherme da Cruz Monteiro, gerente-executivo de Estratégia e Marketing da Unidade de Papel e Embalagens da Suzano.

“Por outro lado, outras macrotendências resultaram no aumento de consumo e fabricação de outros produtos que também podem ser desenvolvidos a partir de máquinas de papel”, complementa o executivo. “Isso, somado a alguns ajustes de capacidade de produção, levou o ciclo de oferta e demanda a patamares históricos mais saudáveis ao longo de 2021.”

Em relação ao segmento livreiro, o presidente da Two Sides chama a atenção para características do volumes físicos que não são encontradas nos meios digitais. “O livro em papel mexe com sentidos como o tato e o olfato”, argumenta. “Estudos mostram que a aprendizagem da escrita em um caderno é brutalmente mais relevante sob o ponto de vista cerebral.”

Sob esse prisma, Guilherme Monteiro, da Suzano, destaca que “o papel atua como um produto democrático de inclusão” no aprendizado para quem “não tem acesso à tecnologia de celulares, computadores e smartphones”.

“Eu gosto de usar o papel em meu trabalho por conta da simplicidade do material e de todas as técnicas.”

Esculturas de papel

A amplitude de alcance do papel se desdobra em múltiplas possibilidades de aplicação também no campo do design. A começar pelos próprios livros que se transformam em sofisticadas peças tridimensionais, originando o conceito de livro-objeto. A criatividade não encontra limites quando examinamos o leque de artefatos de arte e decoração feitos do material.

Para chegar a essa conclusão, basta olhar para a produção da artista e designer parisiense Maud Vantours, de 37 anos. Suas esculturas de papel têm ocupado galerias de arte não só da França como também do exterior, e marcas e organizações importantes a procuram para trabalhar em seus projetos.

Foi assim com a Philharmonie de Paris, complexo de salas de concerto na capital francesa para o qual Maud confeccionou em papel uma série de violinos azuis.

“Eu gosto de usar o papel em meu trabalho por conta da simplicidade do material e de todas as técnicas que ele permite ao ser transformado em uma peça de arte”, afirma a designer francesa.

“Temos utilizado o papel por séculos e acredito que continuaremos a usá-lo mais e mais devido à sua sustentabilidade, às possibilidades de reciclagem e sua composição natural, que é de celulose em sua maioria extraída do manejo florestal sustentável.”

Lanternas japonesas

A flexibilidade de meios e de fins a que se presta o papel é também um dos pontos de partida da arquiteta Mel Kawahara ao adotá-lo para produzir delicadas luminárias de forma manual, como quem faz dobraduras ou origamis, à semelhança das lanternas japonesas.

Ela conta que, sendo formada em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), o desenho sempre lhe foi um modo de pensar, e “o papel tinha esse lugar de espaço em branco para esboçar e desenvolver ideias”, confabula.

“Para mim o papel tem um significado de liberdade para o traço, uma folha em branco. Gosto de pensar nele dessa forma, como se ali pudesse caber um mundo de desenhos, planos, projetos.” Dessa maneira, no decorrer da faculdade, foi descobrindo outras formas de pensar com papel, através de maquetes e com as dobraduras.

“A produção do material permite que ele tenha muitos formatos, desde um A4 até rolos enormes”, diz. “Sua densidade é leve, possibilitando que seja trabalhado sem a necessidade de uma ferramenta, e essa relação direta com ele é muito significativa.

A grande vantagem é poder manuseá-lo, o que facilita para testar algumas ideias, inventar, errar, de maneira mais próxima da execução do produto. A imagem etérea propiciada pela leveza do papel, tanto na parte simbólica quanto na concreta, me agrada muito. Além disso, ele é permeável à luz, o que é bem importante para a confecção de luminárias.”

Em seu processo produtivo, Mel Kawahara costuma aplicar um filme de polipropileno e polietileno na execução final das peças, para dar-lhes maior resistência e durabilidade. “Mas, de qualquer maneira, são materiais em forma de folha semelhante à do papel nos grandes formatos”, explica.

Costura do conhecimento

No que concerne à maleabilidade e adaptabilidade do papel a circunstâncias das mais diversas, o designer Jum Nakao escreve um capítulo à parte. Um de seus trabalhos mais impactantes como estilista foi “A costura do invisível”, um desfile de roupas confeccionadas em papel vegetal de diversas gramaturas, totalizando meia tonelada do material na produção das peças. A apresentação foi realizada na SPFW (São Paulo Fashion Week) de 2004.

Na ocasião, Jum propôs reflexões. E rupturas. Levantou questões não apenas sobre o funcionamento do mundo da moda, colocando em xeque o que se sustentaria para além do verniz e do glamour, mas da construção social como um todo.

Para compor tal cenário de provocações, o designer contrapôs aspectos da transitoriedade do papel ao que ele institui de perpétuo. Ao final do desfile, as modelos rasgaram as delicadas peças que vestiam. No entanto, apesar de sua destruição física, toda a simbologia que elas carregavam permaneceria.

Ao tomar nossos sentidos com suas texturas, o papel costura de fato algo invisível: o conhecimento através dos tempos, ou o próprio caráter do que se tem por humanidade. Invisível porque se perde de vista tamanha a sua extensão, que não cabe em espaços restritos.

Contexto ambiental

Porém, quando consideramos a materialidade do papel, é necessário situar sua fabricação no contexto ambiental da atualidade. Essa é uma preocupação constante de governos, organizações não governamentais, consumidores e também de empresas.

Segundo o último relatório anual da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), publicado em 2021, a área total de árvores plantadas no Brasil em 2020 para fins industriais totalizou 9,55 milhões de hectares, um recuo de 1,4% em relação ao número de 2019, de 9,69 milhões de hectares. O eucalipto é a espécie cultivada em 78% do referido território. O país está entre os dez maiores produtores de papel do mundo, e as exportações do material somaram 2,1 milhões de toneladas.

A indústria de papel e celulose, por sinal, busca acompanhar as necessidades do mercado quando o assunto é sustentabilidade. “Por meio de inovações e desenvolvimento, trabalhamos a ampliação do portfólio de produtos em consonância com os anseios da sociedade por soluções sustentáveis”, frisa Guilherme Monteiro, da Suzano.

A empresa aposta em itens como um papel flexível para embalagens de absorventes e amostras de flaconetes e outro para sacolas de entrega de refeições e alimentos comprados por aplicativo. “Um dos nossos compromissos é oferecer 10 milhões de toneladas de produtos de origem renovável, desenvolvidos a partir de biomassa, em substituição a materiais de origem fóssil até 2030”, diz Monteiro.

Se o mundo muda, o papel acompanha essas transformações. É nesse sentido, na verdade, que ele aceita tudo, adaptando-se ao que o meio lhe demanda. Tem sido assim há séculos e deve continuar a ser por muito tempo ainda.

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