Patrimônio a céu aberto

O muralista Kobra, com trabalhos espalhados pelos cinco continentes, dá mais um passo na carreira ao ter um trabalho tombado pela prefeitura de Sorocaba, no interior paulista.

Por Angela Villarrubia

Fotos: Divulgação, Cyrillo @drone.cyrillo

“Sagarana”, “Vidas Secas”, “Dom Casmurro”, “O Cortiço”, “Os Sertões” e “A Estrela Sobe” são alguns dos livros retratados no enorme mural realizado na empena de uma escola e que agora passa a ser Patrimônio Cultural Imaterial do município de Sorocaba (interior de SP). Seu autor, Carlos Eduardo Fernandes, o Kobra, se emociona com a conquista inédita. Ele acredita que o tombamento abre uma porta para a conservação do grafite, para que as próximas gerações tenham acesso à atual produção. “Este é o movimento artístico mais importante da nossa era”, enfatiza.

Sensível, se diz uma pessoa desprendida dos bens materiais, porém, o mesmo não acontece em relação às suas criações: para ele, é doloroso constatar a remoção de um trabalho. “Quando vejo um dos murais apagados, é como um filho que se perdeu”, observa. “Imagine se todas as obras que estão nos museus fossem apagadas. Ou os murais do Diego Rivera”, exemplifica, ao citar o muralista mexicano. Ele não comenta casos, mas é famoso – e polêmico – o desaparecimento de seu gigantesco grafite, de mil m2, que retratava a cidade de São Paulo nas décadas de 1920 e 1930.

Situado na Av. 23 de Maio, no começo de 2017 terminou coberto pela tinta cinza da Prefeitura, dentro do programa Cidade Linda. Outro episódio, um ano depois, foi o desaparecimento de seu Albert Einstein andando de bicicleta, na rua Oscar Freire, também na capital paulista.

Dono de um amplo e conhecido currículo, o muralista tem uma série de trabalhos em vista. Entre eles, um painel com cerca de 2 mil m2, em San Marino, que contará a história dessa pequena nação europeia. Também estuda diversas outras ações espalhadas pelo Velho Continente, em pelo menos dez países, além de diversas nos Estados Unidos. Antes da pandemia, somava 40 convites no exterior. “Agora estou me organizando, com fôlego total para fazer essa nova série”, afiança.

Entre suas últimas entregas estão dois murais dentro do Hospital das Clínicas de São Paulo, denominados “Metamorfoses” e “Ciência e Fé”, ambos doados pelo artista, como uma forma de reconhecimento pelos serviços prestados pela instituição a milhares de pessoas todos os dias, inclusive durante a pandemia.

Para ele, a arte pode aplacar o sofrimento e levar esperança. Recentemente, o artista também apresentou trinta painéis para uma exposição feita a convite da União Geral dos Trabalhadores (UGT): ele homenageou profissionais como professores, catadores, domésticas, enfermeiras e motoboys, entre outros, ao retratar pessoas reais em interação com famosas obras de arte.

“O que me inspira são as vidas, as verdades, pessoas que fazem o bem, que nos influenciam a transformar o mundo em um lugar melhor”, observa, ao dizer que já retratou mais anônimos do que famosos. A exibição, ao ar livre, foi bem no meio da icônica Av. Paulista, ao longo de um trecho de um quilômetro da sua ciclovia. Arte democrática e de fácil acesso, seja na rua ou dentro do complexo hospitalar.

A veia empática e engajada sempre está aí, plasmada em seu trabalho, muitas vezes com temáticas tão contemporâneas, como no mundialmente famoso mural “Coexistência” – que retrata crianças de cinco religiões, usando máscaras –, um tributo às vítimas da Covid-19. Uma serigrafia desta obra foi sorteada entre os doadores de uma campanha para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade – ainda por cima agravada pela pandemia –, que arrecadou R$ 450 mil.

Kobra, que começou como pichador durante a adolescência, é autodidata e revela que passou a maior parte da vida dentro de livrarias, museus, galerias e bibliotecas, em constante pesquisa. “Sigo estudando intensamente, não só sobre como vou pintar, que é algo técnico, mas sobre o tema, a mensagem, a história envolvida, o país. Há milhares de assuntos que desconheço e preciso buscar informação. Tenho que aprender antes de criar algo. A pintura final é o resultado de um longo processo de pensamento”, assinala.

Tombos e tropeços

A sua arte, de traços tão característicos, também é resultado de muita labuta sob a intempérie, e não está isenta da exposição a diversos riscos. Ele conta que sobreviveu a dois acidentes de trabalho. Em Roma, tombou de uma escada alta, bateu as costas em uma quina e ficou algum tempo imobilizado. Sentia muita dor. Em outra ocasião, caiu e a escada ficou presa num vidro. Se não fosse por isso, teria despencado de peito sobre outro vidro, “o que seria fatal”, relata, embora não acredite que essas ocorrências tenham sido o pior em sua trajetória.

A falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), ou o uso de apetrechos incorretos, o fizeram ter uma intoxicação por metais pesados que o segue pela vida e se desdobra em intolerância à lactose e ao glúten, o que também é um problema para um artista que viaja tanto para trabalhar.

“Os desafios estão em vários níveis. A dificuldade está em pintar algo que estudei por anos e anos e me deparar com pessoas que não entendem de arte, mas querem dar palpite. Querem bloquear o trabalho, interferir na criação”, desabafa. “Mas o desafio pertence à conquista. Se não há desafio, não há mérito, linha de chegada, prêmio, troféu, honra”, conclui, já com vistas às próximas façanhas.

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