POR RODRIGO AMBROSIO | FOTOS YAN GAMA
Quando fomos convidados para palestrar pela primeira vez em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, conhecíamos algumas coisas encantadoras sobre o Pantanal, mas ainda descobriríamos que o bioma é a maior planície contínua alagável do planeta, que a herança cultural dos povos originários está viva e que sua potência criativa é vasta, bela e resistente.
O primeiro encontro com criativos da região aconteceu nessa oportunidade, durante a Semana do Artesão daquele ano pós-pandemia: era início de 2022. Após a palestra “Mergulho Profundo”, em que falamos sobre a importância da valorização e das ressignificação das próprias raízes, muitas interações ocorreram nas inúmeras vezes que fomos à região. Pesquisas, expedições, vivências, oficinas e ideias que resultaram em um trabalho de potencialização do feito à mão pantaneiro.
Na região, rica e extensa, vivem mais de 3.500 espécies de plantas e 1.300 de animais, além de milhares de invertebrados e microrganismos. Localizada no centro da América do Sul, a maior parte do bioma está na porção sul-mato-grossense, mas também se estende por Mato Grosso, Bolívia e Paraguai, num total de 212 mil km2. Uma área natural singular e exuberante que apresenta simbiose com as características de biomas vizinhos, como Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Chaco Paraguaio, Cerrado e Bosques Chiquitanos.
O vaivém das águas mantém o Pantanal como o bioma mais preservado do planeta, um ícone ambiental reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade. Nesse cenário fascinante nasceu o Projeto Pantaneira, com a missão de regar, valorizar e divulgar os saberes enraizados e seus diálogos com a natureza.
Em três anos de atuação, o projeto, em seu Ato 1, percorreu os municípios de Aquidauana, Bodoquena, Corumbá, Ladário, Miranda e Porto Murtinho. Envolveu a participação direta de comunidades terena (aldeias Argola, Babaçu, Cachoeirinha, Ipegue, Limão Verde e Tarumã), kinikinau (Vila São Miguel na aldeia Mãe Terra) e kadiwéu (aldeia Alves de Barros), além de grupos produtivos como Sapicuá Pantaneiro, Casa de Massabarro e Casa do Artesão de Corumbá.
O dia a dia nas aldeias, grupos e ateliês é sempre muito abundante, com as vivências e as trocas de saberes caminhando lado a lado. As particularidades étnicas e culturais de cada interação são como escolas presentes que jogam luzes sobre o passado e o futuro, respeitando as matrizes originárias e apontando para a renovação do olhar.
Nas belas colorações, formas e texturas pantaneiras, cabem respiros da natureza, alma de um Brasil essencial. Alma que faz uma artesã terena passar horas polindo com uma pedra a argila vermelha recém-aplicada na peça moldada ou que faz o povo kadiwéu manter três variações do seu idioma nativo. Uma alma que está nas variações cromáticas naturais das argilas kinikinau ou nas linhas de algodão tecidas manualmente em faixas pantaneiras. Alma em forma de mãos que mimetizam animais em barro ou tecem as fibras da natureza.
A sinergia com as comunidades locais e com toda a equipe envolvida é fundamental para o sucesso e continuidade do projeto, assim como o fomento de instituições. O projeto tem o apoio do Governo do Estado via Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, que promove a pluralidade das expressões artesanais tradicionais e está vinculada à Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura. Conta ainda com a participação do Sebrae, que mantém seu foco na economia criativa, e com a sensibilidade de empresas privadas, como a multinacional Sherwin-Williams, numa parceria que já resultou no lançamento da cartela de cores “Coleção Pantaneira”. Já o encontro com a Tapetah originou a nova coleção “Tapeçaria Faixa Pantaneira”, numa relação exitosa com o Ponto de Cultura Sapicuá Pantaneiro, e a nova estampa de tapetes cocriada com a designer indígena Examelexê Kadiwéu.
Além das parcerias que florescem e dos produtos materializados em comercialização continuada pelo país, novos frutos desse movimento coletivo já surgiram, como a exposição “Rota Pantaneira”, que iniciou um novo capítulo para a Casa do Artesão de Campo Grande, em sua reinauguração. Participações em feiras importantes, como a do Programa do Artesanato Brasileiro, em São Paulo, e a Expoartesanías, na Colômbia, destacaram as novas peças desenvolvidas.
Recentemente, ocorreu a exposição “A Pantaneira”, no prédio histórico do Iphan, durante a Semana Criativa de Tiradentes, em Minas Gerais, e lançado o primeiro livro do projeto. Ações que fortalecem a identidade pantaneira, o pertencimento humano e os laços entre design e artesanato, como defendido pelas pensadoras Janete Costa (1932-2008) e Adélia Borges.























